A Bahia no ministério - publicada no jornal A Tarde em 05 de março de 1985

Depois de longos anos de participação discreta nos governos revolucionários, a Bahia retoma o seu prestígio político no cenário nacional se efetivamente for confirmada a destinação de três ministérios para políticos baianos, como tudo parece indicar. Há, ainda, algumas dúvidas sobre a formação do primeiro escalão do futuro governo e, dentre elas, informava-se ontem que não estava tão certa a presença de Fernando Lyra no gabinete da Casa Civil e que Waldir Pires permanecia entre a Previdência Social e o Ministério da Justiça.

A presença de Waldir, porém, está praticamente confirmada, assim como a de Antônio Carlos Magalhães, em Comunicações, e de Carlos Santana, na Saúde. De há muito a Bahia não participava com tanta ênfase de um Ministério da República. No primeiro governo revolucionário, Castello Branco escolheu dois baianos para o primeiro escalão, Luiz Viana Filho, que ocupou a chefia da Casa Civil, ministro interino da Justiça e também interino de Relações Exteriores, e Juracy Magalhães, que foi embaixador em Washington, ministro da Justiça (quando da edição do Ato 4) e chanceler. 

Nos governos seguintes, a participação foi muito pálida, e no período que ora se encerra quase nenhuma, pois Castro Lima, escolhido para o Ministério da Saúde, não se adaptou no cargo e se exonerou poucos meses depois do início do governo Figueiredo. 

Os três ministérios baianos terão significado especial na política interna do Estado, prevendo-se um crescimento do PMDB em torno de Waldir, sobretudo se vier ele a ocupar a pasta da Justiça. O quadro ainda não está completo. Resta saber quais as posições que serão destinadas ao grupo do governador João Durval e quais as recompensas que terá Roberto Santos, indicado para o CNPq. 

A situação de Roberto Santos é nebulosa. Sabe-se que, se desejasse, seria ele ministro da Saúde, embora Tancredo tenha muita afinidade com o deputado Carlos Santana, desde a época da formação do extinto Partido Popular, nacionalmente liderado pelo presidente da Nova República. Informa-se, extra-oficialmente, que ao Sr. Roberto Santos estaria reservada a indicação de nomes para ocupar cargos federais na Bahia, e entre estes – e de maior vulto – a Secretaria Geral da Ceplac, posto também do interesse do governador João Durval. Já existem nomes disputando este cargo, um dos quais com a chancela de Roberto Santos. 

A indicação de Waldir é um caso à parte. Bem relacionado entre os oposicionistas históricos, este político de incontestável formação cultural e de reconhecida estrutura ética, foi apontado por líderes do PMDB nacional, com realce para Ulysses Guimarães de quem é amigo interlocutor constante nos assuntos do partido. Antônio Carlos ganhou o ministério nos primeiros momentos da escalada formidável de Tancredo Neves, quando, no mesmo dia em que Maluf derrotou Andreazza na convenção do PDS, lhe ofereceu apoio, para não relembrar o episódio de 4 de setembro em Salvador, ao responder de forma contundente a Délio Jardim de Mattos.
 

* Coluna publicada originalmente na edição do dia 5 de março de 1985 do jornal A Tarde