Um parto que ficou difícil - publicado no jornal A Tarde de 06 de abril de 1982

Se não foi uma atitude de lava-mãos, pelo menos este era o entendimento logo após a nota divulgada pelo grupo Tendência Popular, na qual o deputado Francisco Pinto renunciava à sua candidatura ao governo do estado. O documento, inesperado e repentino, criou um terrível mal-estar entre as correntes peemedebistas, frustrando as expectativas do grupo agresso do Partido Popular, liderado por Roberto Santos, e profundas interrogações na facção de Waldir Pires, que não entendia o significado da palavra “consenso”, grafado na nota.

A posição do grupo Francisco Pinto, porém, nada mais é do que uma atitude de salvaguarda com efeito futuro, isto é, para evitar possíveis críticas ou transferência de responsabilidades durante o desenrolar da campanha ao governo e, principalmente, quanto aos seus efeitos eleitorais.

O deputado feirense não abandonou mesa de negociações nem, muito menos, emitiu um toque de retirada, segundo confessou. Pinto não abdica do exercício da influência política que possa exercer, com o peso do grupo que lidera, na definição do candidato ao governo que, para ele, reuna condições de vitória.

A situação no PMBD é, no momento, bastante confusa mas tende a se tornar mais clara nas próximas 24 horas, decisivas para uma definição que já se arrasta há dez dias, sempre no mesmo tom renitente do “é hoje, é amanhã”.

Na noite de ontem, enquanto Waldir Pires e Roberto Santos se reuniam, certamente analisando os últimos acontecimentos gerados com a nota do grupo Tendência, o deputado Francisco Pinto permanecia em plantão na residência do deputado Adelmo Oliveira, aguardando ser convocado para uma reunião durante a madrugada. É possível que as negociações, com a presença dos três interessados, se intensifiquem na manhã de hoje para que, à noite, o nome seja divulgado evitando-se, assim, um desgaste do partido junto às suas bases, já em atitude de flagrante indocilidade com a indefinição.

Neste afunilamento da decisão peemedebista, os ânimos estão, flagrantemente, exaltados e será necessário um esforço conjunto para que, do episódio, não vinguem seqüelas ou litígios entre as correntes envolvidas.

Depois da incorporação do PP e sendo Roberto pretendente, assim como Waldir, o grupo do deputado Francisco Pinto passou a ser uma espécie de fiel da balança e, desta condição, o parlamentar parece não abrir mão. Argumenta que seu poder de influência será exercido, na plenitude, mas garante que o fará como mediador, de sorte e fortalecer a coesão partidária que, na noite de ontem, esboroava-e com acusações entre as partes envolvidas no processo.

Difícil será estabelecer um peso eleitoral para cada candidato. No momento, o Sr. Roberto Santos parece reunir melhores condições, alicerçado que está pelos números das últimas pesquisas de opinião pública. O grupo de apoio a Waldir Pires, porém, entende que esta candidatura, caso consagrada, tenderá a crescer durante a campanha, bastando, para isso, que a união se faça.

União que, pelo menos, será difícil de ser obtida pelo menos nos próximos 30 dias.

Qualquer que seja a escolha, deixará fatalmente, descontentes e viúvas.
 

* Coluna publicada originalmente na edição do jornal A Tarde, em 06 de abril de 1982