Efígie de autor que inspirou filme concorrente ao Oscar está esquecida em novo lugar na Barra

Autor dos contos que inspiraram o roteiro de “O Grande Hotel Budapeste”, de Wes Anderson, concorrente em nove categorias do Oscar (incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia), o escritor austríaco Stefan Zweig tem efígie em sua homenagem em Salvador, especificamente em frente ao Forte de Santa Maria, no Porto da Barra. Esquecido, o monumento, de autoria do italiano Heitor Usai, ficava em frente ao Hospital Espanhol antes das obras de requalificação da orla. “Nem participamos dessa mudança, o pessoal que realizou as intervenções, que fizeram a obra, é que fizeram a alteração, nem fomos comunicados, ficamos sabendo depois”, afirma o gerente de Monumentos da Fundação Gregório de Mattos, Cássio Ribeiro. A efígie foi retirada do local no início dos trabalhos, passou por uma limpeza, e agora faz companhia ao busto dedicado ao Almirante Tamandaré, restaurado em parceria com a Marinha do Brasil.


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A homenagem pode soar estranha em um primeiro momento, mas Zweig tinha fortes relações com o Brasil – neste domingo (22), dia em que será realizada a cerimônia do Oscar, completam-se 73 anos de sua morte, em Petropólis, no Rio de Janeiro. Judeu, o autor fugia do nazismo e da 2ª Guerra Mundial com sua segunda mulher, Lotte, e chegou ao país em 1940, após ter passado por Nova York. Em viagem pela América do Sul para uma série de conferências, passou por Belém, Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, entre outras cidades. A excursão serviu de referência para o livro de ensaios “Brasil, um país do futuro”, em que tratou da realidade econômica e social do país, por um viés otimista. A frase que intitula o livro acabou se tornando um slogan para o país, mas alimentou críticas de que o escritor era simpático à ditadura de Getúlio Vargas. 


Stefan Zweig ao lado da esposa, Lotte, que se suicidou com o marido em Petropólis/Foto: Arquivo/Casa Stefan Zweig

Desiludidos com as acusações de que teria escrito o livro a pedido do presidente e deprimidos com o sombrio contexto mundial em que se encontrava, ele e Lotte se suicidaram em 1942, em Petropólis, onde morou e escreveu sua biografia, “O mundo que eu vi”. Após o suicídio, cercado de controvérsias, o sepultamento foi realizado em Petropólis com honrarias de Estado, porém, não foi permitido o enterro em um cemitério judaico no Rio. A efígie em Salvador, inaugurada em agosto de 1943, é a mais antiga. O monumento tem dois metros de altura, possui medalhão em bronze, em uma coluna revestida de granito cinza. Outra foi instalada próximo a sua casa em Salzburgo, na Áustria, em 83. Em 2003, foi a vez da implantação de uma terceira, no Jardim de Luxemburgo, em Paris.


O antigo local onde a efígie estava, em frente ao Hospital Espanhol | Foto: Blog Salvador - CircuitoBarra

A biografia concluída no Brasil foi uma das principais referências da obra do austríaco no filme. “Isso é basicamente um plágio. Eu roubei muito de Zweig", disse o diretor, Wes Anderson, durante entrevista no Festival de Berlim. Outra inspiração, segundo o jornalista Alberto Dines, que é biográfo do escritor, foi "Cuidado da piedade", em que Zweig retrata a sua terra natal como "um país magnífico e o mais tolerante da Europa". Outra ligação com a Bahia é o filme "A Coleção Invisível", dirigido pelo francês radicado no estado, Bernard Attal, e baseado em conto homônimo de Zweig, em que o ator Vladimir Brichta interpreta o protagonista, Beto, dono de uma loja de antiguidades que decide fingir ser um curador de museu e visita a região cacaueira em busca de gravuras que podem ajudar a pagar as dívidas de sua família.


Cena de O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson, inspirado na obra de Zweig /Foto: Divulgação