'Foi um momento mágico', diz Marcia Freire, uma das principais mulheres da música baiana

Márcia Freire é uma das principais figuras femininas da música baiana com diversos sucessos como “Baiana Merengueira”, “Que Arerê”, “Rebentão”, entre tantos outros. Os mais de 20 anos de carreira parecem não pesar nem um pouco para esta artista que está sempre se reinventando, subindo em diferentes palcos e atraindo um público cada vez mais eclético. Conhecida como Furacão Loiro, Marcia Freire participou no último domingo (18) da 21a Parada de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT) em São Paulo  e confessa que se surpreendeu com as milhares de pessoas que se concentraram na Avenida Paulista. “Foi um momento mágico”.

 

Márcia, você acabou de voltar da 21a Parada do Orgulho LGBT em São Paulo que aconteceu no último domingo, como foi esta experiência?

A princípio é uma parada na verdade para todos, não somente LGBT; você vê criancas, adultos, famílias, um verdadeiro carnaval. Mas a gente como artista tem que aproveitar esse momento para conversar com todos que estão ali, numa só voz; falar sobre a discriminação, sobre a intolerância. Eu fiquei impressionada com a quantidade de gente que tinha ali na Paulista, um público participativo. Foi maravilhoso pra mim, foi mágico mesmo, da gente se perceber numa sintonia muito grande, afinal somos todos humanos, estamos no coletivo, apesar de ser no singular, mas somos unidos naquela voz ali. Foi interessantíssimo.

 

O que mais te chamou a atenção?

O que mais me surpreendeu foi o não preconceito de todos que estavam ali. Milhões de pessoas, gente do Brasil e do mundo inteiro. A proposta de estar todo mundo ali contra a intolerância, foi o que mais me impressinou, e o que me impresionou também foi a multidão. Eu já sabia que era muito cheio, mas quando a gente chega ali e fala “Meu Deus! O que é isso?”. Parece até maior que o carnaval da gente, uma loucura.

 

Você já tinha participado antes?

Eu nunca tinha participado, minha primeira vez. Quando eu cheguei em São Paulo sábado eu fiz um show numa boate na Vila Mariana, e no outro dia fui para Parada. Foi muito importante, não só para minha carreira, não só para visibilidade como artista, mas também porque esse é um público meu muito forte. Já tem um tempo que eu faço shows na San Sebatian, que eu faço um trabalho bacana e fiquei muito feliz em estar ali celebrando!

 

Vivemos, atualmente, no Brasil um movimento em diversas áreas. Um momento importante de mudanças e de renovações. Há um processo de transformação, também, para o artista?

Essa renovação para o artista eu acho que é muito pessoal, embora seja um movimento, eu acho que a gente vive em renovação, o tempo todo em mudanças. Todos os dias quando a gente acorda nunca é igual ao outro. Não é verdade? A gente está sempre mudando e como artista a gente vai mudando de ideias, outras coisas vão nascendo. É uma renovação constante.

 

E a música baiana, o que mudou e o que precisa permanecer?

Eu já falei sobre as mudanças. Dentro da música baiana é importante desconstruir essa crença que o movimento da música baiana está ultrapassado, sofre uma crise e por aí vai ... porque aquilo que a gente acredita é o que acontece. A música baiana na verdade não é um movimento, é algo que a gente construiu e que a gente chegou num patamar bacana. Mas essa música não é um elemento só; nossa música ela é pop, ela é caribenha; é uma grande mistura. Na verdade a gente mistura todos esses ritmos e vinha o compositor com a sua mensagem e a gente traduzia para o povo em forma de música mais dançante, para o povo dançar e curtir. Não tem um formato específico ou especial pra isso.

 

Você acredita que existe uma estagnação criativa?

Sobre a estagnação criativa, eu já falei que existem processos em que os compositores param de criar e depois voltam. Eu nunca fui compositora da música baiana, então minha parte foi sempre outra, mas não acho que exista uma permanência nessa estagnação e sim uma retomada, um novo ciclo.

 

Você é uma cantora com muita experiência, bagagem e acumula diversos prêmios. Está sempre recomeçando?

Eu vejo os prêmios apenas como uma referência ao que a gente fez e entendia os prêmios de uma outra forma. Temos que estar sempre buscando uma melhora, aprender com os erros e consertar. Buscando sempre uma bagagem seja em relação à música, aos figurinos, às pessoas.

 

Quais foram os momentos mais difíceis em sua carreira e quais os que mais te orgulham?

Eu comecei muito cedo, então os momentos difíceis não foram tão difíceis, pois aos 17 anos tudo era maravilhoso. Trabalhamos muito para sermos aceitos, mas não tivemos momentos difíceis, tudo fluiu dentro do que a gente imaginava. Todos os momentos da minha carreira me orgulharam, me emocionaram, todos. Não teve nenhum momento que não fosse assim.

 

Em algumas profissões há uma disparidade salarial entre homens e mulheres ocupando a mesma função. E na música isto acontece?

Dentro da música, pelo menos nunca ouvi falar da gente ganhar um cachê menor por sermos mulheres. São muitas mulheres fazendo a música né?! A gente começou em cima de um trio, onde puxar um bloco já era um preconceito e tudo mais, mas financeiramente sempre ganhamos igual aos homens, não teve essa diferença pelo fato de sermos mulheres. Infelizmente a gente ainda vê muito disso pro aí e acho que ainda vai levar um tempo para desconstruirmos essa cultura machista.

 

Márcia, e quais são seus novos projetos?

Eu estou vivendo o presente, cada dia é um dia, cada show é uma celebração como foi este na Paulista e continuo comemorando estes mais de 20 anos de carreira celebrando sempre! Iga, obrigada pela entrevista! Vou viajar agora (risos) passar uns dias na Praia do Forte e estarei sempre pronta para novos projetos.