Elíbia Portela representa a gastronomia baiana e há 35 anos à frente de um programa de Tv

Quando o assunto é gastronomia, Elíbia Portela é uma das grandes representantes da Bahia. Há mais de 30 anos à frente do programa Prato da Casa veiculado na TV Bandeirantes, muito mais que uma chef de cozinha e apresentadora, Elíbia também é professora e já escreveu dezoito livros. Entre as diversas receitas que inventou destaque para o salgadinho Boliviano, que marca presença em quase todas as festas, e o Pãozinho Delícia da Bahia, receita que se popularizou e foi criada como uma solução para o antigo pãozinho de aniversário que apenas poucas pessoas conseguiam fazer.

 

O programa para televisão nasceu em 1982, na TV Itapoan, quando  a emissora era filiada ao SBT e ficou sendo transmitido por 13 anos. Logo depois Elíbia migrou para TV Band Bahia e lá segue até hoje, de segunda-feira a sexta-feira, das 7h às 7:30h, com um público fiel e receitas variadas.

Além do programa de receitas, ela dá cursos no Centro de Culinária Elíbia Portela. A cada mês abrem-se novas turmas para aulas de doces, salgados ou culinária básica (trivial).

 

Como surgiu a idéia do programa Prato da Casa? Qual sua formação?

Na verdade estreei no programa Mulher Total, um programa de variedades, em um quadro de culinária. O programa acabou e uma semana depois estava Pedro Irujo e sua turma toda querendo que eu voltasse. Algumas pessoas me chamavam de Prato da Casa, Prato de Ouro, Prato de Prata. Não tinha na Bahia um programa de culinária então ficou o Prato da Casa como o primeiro programa de culinária do estado. Sou formada em técnica de congelamento, em São Paulo, vim para Salvador para fiscalizar empresas que faziam congelados, mas era uma atividade muito perigosa nas docas. Eu tinha que inspecionar a qualidade dos produtos e se estavam estragados ou não. Tenho formação também em técnica de micro ondas, fui para os EUA e trouxe diversas técnicas para a Bahia.

 

Como nasceu este amor pela culinária?

Sou filha de uma dona de casa muito dedicada que criou 8 filhos. Minha mãe era “banqueteira”, ela fazia os banquetes da cidade, baquetes da maçonaria e nós filhas ajudávamos, ou ajudava ou apanhava! E o amor veio naturalmente, não sei fazer outra coisa ... E assim nasceu o amor pela cozinha.

 

Quarenta e cinco anos no mesmo oficio é uma verdadeira demonstração de amor, certo? A experiência dá mais gás para continuar?

São 45 anos de sala de aula e 35 anos de TV! A gente só faz bem o que a gente gosta! Tive tempo pra pensar, pra desistir, cada dia meu amor cresce, é o que amo fazer. As pessoas não querem mais ter empregada dentro de casa e cada vez mais têm que saber cozinhar, então graças à Deus minha escola vem sendo bastante procurada, meu curso de culinária sobre o trivial é uma necessidade para muitos hoje. Então continuarei fazendo e ajudando as pessoas.

 

Seu público mudou muito com o passar dos anos? Você tem um centro culinário, isso?

O público mudou muito! Agora temos homens jovens, senhoras, aposentados que antes tinham empregada doméstica ou uma mulher que era dona de casa e fazia a comida. Hoje a realidade é outra. Agora faço com que as pessoas se tornem verdadeiros gastrônomos, que aprendam desde um molho de tomate até um filé, um risoto. Pessoas que nem sabiam fritar um ovo, saem daqui entendidos até de culinária internacional. O Centro Culinário Elíbia Portela fica no Caminho das Árvores. Todo sábado, das 8:30 até às 12 horas, temos o curso de culinária trivial. A pessoa só precisa fazer as 8 aulas para concluir, não há sequência, desde que faça a quantidade exata.

 

O que te satisfaz mais: ter seu programa de TV ou seu centro culinário?

Tudo aquilo que continua fazendo por amor, satisfaz. Tudo que faço é com amor. A televisão, as aulas, os livros que já escrevi... tudo me faz bem. Adoro ensinar! Quando não gosto de fazer algo, simplesmente deixo para atrás, assim que deve ser: fazer o que se gosta!

 

Foi árduo chegar até aqui ou as coisas simplesmente foram acontecendo?

Novamente, quando se faz o que gosta, nada é árduo. Gosto de trabalhar com meus alunos, eu os preparei e gosto de tê-los junto a mim na prática para poder cobrar o que ensinei, por exemplo. Árduo para mim é ficar parada, sem fazer nada.

 

Qual a foi a sua pior experiência, que te fez pensar em desistir de tudo?

A primeira pessoa a montar um restaurante a quilo na Bahia fui eu. Tive que desistir na época do governo Collor, não tinha como comprar as coisas por que era tudo muito caro, me desestimulou ... então tive que desistir mesmo. Depois parei de tentar ter restaurante,  pois quem tem restaurante não pode ter outra coisa, e eu tinha as aulas, não tinha como, era um ou outro.

 

Qual experiência que mais tem orgulho nesta trajetória?

Foi um fato que aconteceu comigo na TV Bandeirantes, em um evento de inauguração da rádio, que Antonio Carlos Margalhães participava e ele veio me cumprimentar e elogiar, beijou minhas mãos e disse: “essa sim é gente da Bahia, D. Elíbia seus ensinamentos encantam e ajudam demais as pessoas” e ele foi e depois voltou para me dizer: “minha empregada só faz o que a senhora ensina e tudo que ela faz é gostoso! Sabe aquela torta de coco? Ela faz e só é dessa que eu levo pra Brasília!” Fiquei muito grata com os elogios, isso me emocionou demais.

 

Quem frequenta mais seus cursos: homens ou mulheres? Jovens? Mais velhos? Qual o perfil?

Temos alunos de todas as idades. E isso é bom, pois a cada dia quebramos o preconceito de que existe uma idade certa para cozinhar. A melhor hora para cozinhar é quando a vontade bate. Tenho cursos para crianças e jovens, e um curso para noivas que queiram aprender a cozinhar, a preparar uma mesa, mas este vamos começar na próxima semana.

 

Por que a cozinha como escritório?

Não só a cozinha, mas quarto, sala.... todo lugar é lugar para idéias. Minha casa é ligada a gastronomia, minha casa inteira é cozinha e isso é um prazer enorme e um amor muito grande.

 

Qual foi a melhor receita que já fez, que olhou e disse eu amo o que faço!

Já fiz várias, graças a Deus e já lancei várias! Uma delas, que muita gente conhece, já comeram em vários lugares e nem imaginam que foi criado aqui na Bahia por minhas mãos, é o boliviano: salgado, redondinho, picante, frito e passado no açúcar com canela. Coloquei esse nome em homenagem a uma amiga boliviana que estava comigo na hora que o servi. Na verdade esta amiga estava preparando saltenhas e sobrou recheio. Daí inventei uma massa e usei o recheio. Ficou muito picante! Então passei no açúcar e na canela, e pronto. Um amigo experimentou, adorou e me perguntou o nome, então imediatamente respondi: “boliviano”.

Outra grande receita é a do pão delícia da Bahia! Eu sou de Jacobina, mas nesta época  morava em São Paulo e queriam que o chamasse de paulistinha, mas não aceitei pois eu queria homenagear minha terra. Na época participei do programa de TV de Ofélia, em 1988, contei a história e deixei claro que era o Pão Delícia da Bahia. Tenho muito orgulho dessa receita, toda semana realizo oficinas para ensinar a massa desse pão para quem quer fazer para vender. Por isso, em diversos lugares do mundo tem gente que sabe fazer, tenho alunos em Recife, na Holanda, nos Estados Unidos, São Paulo até no Japão. Mas deixa eu esclarecer uma coisa: esta receita surgiu depois que me pediram para fazer o pãozinho de aniversário que já existia na Bahia e era muito difícil de fazer, você contava nos dedos quem fazia esta receita. O de antigamente se batia a massa muitas vezes na pedra para dar condições de moldar. Então eu, não contente, decidi inventar outra receita e fiz uma massa mole preparada na batedeira e enrolei no formato comprido, assim criei o Pão Delícia da Bahia que não tem nada a ver com o pãozinho de aniversário de antigamente. Esta minha massa tenho em mais de 10 versões.

 

Dizem que a cozinha é o coração de uma casa, você concorda? Por que?  

Bem, eu tenho 3 cozinhas, ou seja, meu coração é bem grande! Gravo programa em uma delas, recebo pessoas. O lugar que mais gosto na minha casa é a cozinha.