Transição Capilar: um ato de amor próprio!

Ainda me lembro do dia em que resolvi entrar em transição. Sentada em frente ao computador no estágio, tentava entender o porquê de tantas meninas negras estarem falando sobre a importância de deixar o cabelo “enjubar”, tomar sua forma natural e dessa tal liberdade que era estar livre de químicas e da quentura da chapinha e secador.

 

Primeiramente eu queria compreender qual era o ponta pé inicial para resolver deixar crescer novamente os cabelos naturais e os ziguezagues tomarem forma no topo da cabeça. E é isso que quero dividir com você nesse texto!

 

Muita coisa é imposta na rotina da mulher negra, como se vestir, como se portar, a hiper sexualização, as críticas com o corpo e principalmente com a estrutura capilar. O cabelo crespo cresce naturalmente para cima, uns tem a tendência de descer e outros não, mas são naturalmente volumosos e delicados. Desde pequena ouve-se de quem nos penteia a dificuldade que é desembaraçar esses volumosos cabelos, o quão trabalhosos são e os termos depreciativos não param por aí.

 

O convívio em colégio, a vontade de usar o cabelo solto e querer entender porque o cabelo da coleguinha fica pra baixo e o nosso vai pingando água e creme e quando seca continua um montão de cabelo. E por aí começa a vontade de conhecer alternativas para domar esse cabelo, a ida ao salão onde a cabeleireira te explica que só vai dar uma massagem pra soltar mais os cachos e quando você se dá por conta já está na chapinha modelando as pontas do cabelo diariamente, alternando para o uso mensal de relaxamentos e alisantes.

 

Quando chega a adolescência é uma das partes mais complicadas, porque ter um visual europeu de mulher imposto pela nossa sociedade nos encaixa nos grupinhos sociais, mas nos separa da nossa identidade, fazendo com que percamos horas sob a chapinha para ir a uma festa que sabemos que o suor vai fazer esse penteado ir por água abaixo, mas as moças ao seu redor vão estar com os cabelos comportados e é essencial que estejamos também.

 

Aos dez anos de idade passei a relaxar o cabelo e usar bigudinho para formar cachos e diminuir o volume do meu crespo, que não se encaixava visualmente em frente ao espelho no que me foi dito que era bonito.

 

Aos doze uma vizinha me ensinou a usar a chapinha e assim fui assiduamente até o primeiro corte químico, onde os cabelos foram para os ombros. Usei uns cinco tipos diferentes de químicas alisantes e mesmo assim a raiz crespa continuava aparecendo. Optei por selante, escova inteligente, progressiva natural (que cá entre nós, não tem nada de natural). Até que o cabelo passou a quebrar.

 

Quinze anos, festa de debutante de uma amiga e eu precisava estar com o cabelo no lugar, comecei a alisar com ferro, aqueles antigos mesmo que se esquentava no fogão! Voltei pro selante e o cabelo continuou a pedir socorro.

 

E foi da curiosidade que vieram as descobertas. O nosso cabelo crespo é símbolo de resistência assim como nossa cor de pele e nossos traços, o quadril largo, o nariz largo, o sorriso de gengiva escurecida, tudo é motivo para se orgulhar. O cabelo que cresce para cima é como uma coroa. Um pedido constante de liberdade. Uma alta estima em ascensão, apelo pelo cuidado.

 

Descobri na transição capilar como cuidar do crespo, que o corte do liso para o natural durante a transição é opcional. Mas dentre tantas coisas que descobri na transição me descobri em plena militância, mulher feminista, que merece sim ter seus direitos, sua estética e se sentir em pleno gozo de sua total beleza. Descobri Dandara, Chica da Silva e Nina Simone. Encontrei representatividade em mulheres negras, escritoras, atrizes, donas de casa, advogadas, costureiras, juízas, estudantes.

 

E enxerguei a beleza que o meu cabelo carregava, cortei Joãozinho e senti o vento passando no couro cabeludo e vi cada Z de cabelo crescer e tomar sua forma. Engana-se quem pensa que o crespo pode ser domado, ele quer ser amado e solto. E quando cheguei ao final da transição com cabelos para o alto, me vi não só crespa, mas também empoderada e em constante evolução.

Caroline Vilas Boas
Soteropolitana, Jornalista em formação (por amor e vocação), Blogueira do Causando Barulho, integrante do Coletivo Minissaia, Leonina, Feminista. Ama café, praia, dança e bons papos. Sempre aberta a desconstrução. Vê  nos dias sempre uma oportunidade de ser feliz!

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