Paulette Furacão - Primeira transexual a assumir um cargo público no governo da Bahia

A ativista do movimento LGBTT, Paulette Furacão, foi a entrevistada pela Coluna Justiça do Bahia Notícias. Ela foi nomeada para um cargo na Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos da Bahia (SJCDH). Militante da causa desde 2006 teve seu trabalho reconhecido a partir das ações sociais desenvolvidas junto aos jovens do Nordeste de Amaralina. "No bairro, quando começamos, as pessoas não acreditavam. Achavam que era ‘maluquice de viado’, mas depois começaram a compreender”.

Bahia Notícias- Como iniciou sua militância para os direitos LGBTT? 

Paulete Furacão- Infelizmente de uma forma trágica, porque precisou minha amiga Laleska De Capri falecer, ser assassinada, para que a gente pudesse entender que precisávamos lutar por nossos direitos   

BN- Como é ser a primeira transexual a assumir um cargo público no Estado?

PF- Eu sempre atribuo à força do movimento e acredito que é o movimento que está vencendo. Porque há muito tempo o GGB vem trabalhando e eu fico imaginando que  tenho apenas oito anos na militância, sofria discriminação e percebia as dificuldades do movimento. Imagine 32 anos atrás. No Nordeste de Amaralina quando começamos as pessoas não acreditavam, [diziam] era “maluquice de viado”, mas depois começaram a compreender através de uma parada gay e até os próprios componentes do LGBTT entenderam que era algo sério, consistente. Então a minha nomeação foi através de um grande trabalho que eu venho desenvolvendo.   
 
 

BN- Como é sua relação com o Secretário Almiro Sena? Você já o conhecia?

PF- Coincidentemente, eu participei de um evento na Câmara de Vereadores no dia do Combate a Homofobia e ele estava na mesa, ele ainda não era secretário, creio que era promotor de Justiça. Estava no nosso destino esse encontro. Acredito que minha nomeação se deu através de minha militância, ele pesquisou, já que eu tenho um trabalho interessante, sou a primeira transexual a ser da Comissão de Organização da Conferência de Controle Social, Juventude, Trabalho e Emprego Decente.

BN- Quais são as funções desse cargo que você acabou de assumir?

PF- Vamos dar suporte ao movimento LGBT, às demandas, às ações. A conscientização que já está acontecendo e as informações necessárias para as pessoas, pois temos percebidos que através de palestras, temos conseguido conscientizar. Tanto que foi muito bem aceita pela sociedade a minha nomeação.     

BN- Existe uma transexual nomeado em cargo parecido no governo do Ceará. Você tem conhecimento das ações desenvolvidas por ela? Pretende trocar experiências?

PF- Ainda não, mas isso é bom para o movimento, porque mostra que estamos avançando e os outros estados também. É ótima essa inserção porque é um público difícil de ser inserido, já temos projetos para tentar alterar essa realidade. 

BN- Qual a importância que tem esse cargo na sua vida profissional e pessoal?

PF- Eu acredito que foi o reconhecimento da comunidade, da sociedade... É uma quebra de barreira. Sou religiosa, acredito em Jesus Cristo, ele é meu mentor e cheguei nessa posição porque ele permitiu.

 


BN- O secretário Almiro Sena foi indicado pelo Partido Republicano Brasileiro, que hoje representa o braço político da Igreja Universal do Reino de Deus . Algumas igrejas evangélicas têm feito oposição à militância homossexual. Como fica isso?

PF- Eu estou muito impressionada com o tratamento das pessoas, os apoios que a gente tem recebido. Acredito que uma Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos deve agir sem preconceito, é o caminho da diversidade.   

BN- Você já ouviu alguma critica em relação a sua nomeação?

PF- Não. Só escutei coisas boas, pessoas me apoiando, querendo dar suporte, é aceitação o tempo todo. As pessoas estão compreendendo que é com a diversidade que a sociedade cresce. 

BN- Como você encara o fato de o Estado da Bahia possuir o mais  alto índice de homicídios contra homossexuais, travestis e transexuais? 

PF- É triste, mas vamos trabalhar para mudar essa realidade, acredito, como disse anteriormente, que informação é tudo. O machismo também é um fator que ainda impera na sociedade e precisa ser desconstruído. Então é uma luta diária. Tem diminuído, mas ainda precisa avançar mais, com políticas públicas nesse segmento. Vamos também criar parcerias com o Ministério Público, com a delegada Laura Pepe que faz parte do comitê LGBT 

BN- E o Projeto de Lei 122?

PF- O Projeto de Lei 122 trata da criminalização da homofobia, é de 2006 e ainda não foi aprovado. Está no Congresso porque a ala dos religiosos insiste em barrar. Acredito que alguns políticos não entendem seu papel, se você é eleito pelo povo, você tem que trabalhar em função da melhoria da condição das pessoas e não ser guiado por suas crenças.  
 
BN- O transexual na sociedade contemporânea sempre aparece associado com a prostituição, a marginalidade. O que você pensa disso?

PF- A falta de opção faz com que isso aconteça. Isso também ocorreu com o povo negro, o quanto foi marginalizado e continua sendo. Então, acredito que através do trabalho, da educação, nós podemos desmistificar essas ideias. 
 
 

BN- Teve muita repercussão você ter assumido esse cargo, como  também há quatro anos,  quando Léo Kret assumiu uma vaga na Câmara de Vereadores de Salvador. Como você avalia o mandato de Leo Kret relacionado à política de defesa LGBT?   
PF- Eu acredito que ela tem avançado bastante. Claro que precisamos de orientação, porque diferente de outras pessoas não tivemos a oportunidade de estudar, de ter uma formação acadêmica, mas ela tem feito um ótimo trabalho.  

BN- Depois de passar por esse cargo, o que você espera do futuro?

PF- Sinceramente, eu já me sinto satisfeita se o movimento for inserido e a construção for coletiva. Não é só Paulette, eu apenas represento o movimento no estado da Bahia.

BN- E por fim, por que você escolheu o nome Paulette Furacão? 

PF- Paulette foi escolhido por conta do meu nome, que é lindo para um homem e Furacão por causa da força, auto-afirmação, da destruição para a construção. Então, a gente precisa destruir o preconceito para  construir uma sociedade melhor.