Sucesso em 2016, 'Frases de Mainha' volta com novos personagens e peša para o teatro

Foi em julho de 2016 que uma família bem baiana começou a invadir o Facebook. As esquetes que traziam o cotidiano de uma mãe e filho periféricos fez de "Frases de Mainha" um sucesso de público e agora começam a colher os frutos. Idealizado inicialmente pelos amigos Caio Cezar Oliveira e Erick Paz, o projeto de cards sobre dizeres maternais nordestinos ganhou forma, cor, tom e voz através do atores Sulivã Bispo (Mainha) e Thiago Almasy (Júnior). De lá pra cá, a página saltou de 5 mil curtidas para quase 300 mil em menos de um ano. Com a primeira temporada encerrada e a cobrança dos fãs pela segunda leva de episódios, os artistas estiveram na redação do Bahia Notícias para bater um papo sobre todo esse movimento. "Acho engraçado, pois elas assistem 'Games of Thrones' 'How to Get Away with a Murder'  e esperam um ano para voltar. Não podem esperar um ano para 'Frases de Mainha' voltar com uma nova temporada? Ficam na agonia em cima da gente. (risos). Vão ter que esperar, pois agora a ideia é gravar tudo de uma vez e ir soltando semanalmente", brinca Thiago. Além do humor regional, o projeto busca retratar a realidade da mulher negra, pobre, da favela, mas que se vira para criar seu filho com o melhor que pode oferecer. "Estamos representando essas mães e mulheres baianas. Nosso povo é muito engraçado, então precisamos de uma comédia que fale bem da gente, que fale bem da mulher preta, do menino preto, da periferia, dessas camadas que representam a gente", pontua Sulivã. Confira a entrevista completa:   

Vocês são atores de teatro. Como o projeto Frases de Mainha entrou na vida de vocês? 
Thiago: Frases de Mainha foi criado por Eric Paz e Caio Cesar enquanto estavam na faculdade. Caio teve a ideia a partir das frases que a mãe dele dizia e fizeram o projeto com cards de frases de outras mães nordestinas. Depois de um tempo de pausa, retomaram com a página e Eric, que é meu amigo de infância, me chamou: "Ah já que você é ator, vamos fazer um vídeo para página. Seu papel será de um filho. Conhece alguém que pode fazer a mãe?". Na hora já disse que conhecia o Sulivã. Aí fizemos um vídeo, gravamos bem na descontração, ainda sem roteiro, mas quando lançamos, foi aquele "boom". A página saltou de 5 mil para 30 mil em uma semana e decidimos que não pararíamos mais. Aí gravamos mais um, depois outro, e virou uma temporada inteira.  
 

Sulivã: A gente fica muito feliz porque disse a Thiago que só faria um vídeo, pois estudando na UFBA, dando aula, com espetáculo em cartaz e várias outras coisas, não teria tempo. Porém, foi um "boom" tão louco que a gente não tinha como não continuar. Foi tudo muito rápido. OS youtubers geralmente demoram, né? Eu nem sabia o que era "youtubers". Sempre digo que virei humorista e comediante através do gancho de Frases de Mainha.  
 

Desde o primeiro vídeo vocês perceberam que seria um projeto especial? 
Thiago:  Mais ou menos. Assim, quando fizemos o primeiro episódio o clima era muito mais de brincadeira de amigos. Mas com a recepção, começamos a ter responsabilidade sobre o que estávamos produzindo, pois chegou na configuração de um recorte muito baiano; de uma mãe que cria seu filho sozinha e que ao mesmo tempo tem esse filho, com seus 20 e poucos anos, e que não faz nada da vida. Então, percebemos o cruzamento de gerações. E sem deixar o humor de lado, vimos que tinha potencial.
 

Sulivã: Fomos nos organizando com o tempo. Procuramos alinhar todas as qualidades de cada um da equipe para chegar bem no vídeo. É um respresentatividade muito forte, né? Estamos representando essas mães e mulheres baianas. Nosso povo é muito engraçado, então precisamos de uma comédia que fale bem da gente; que fale bem da mulher preta, do menino preto, da periferia, dessas camadas que representam a gente.  

A família de vocês busca retratar essa Bahia sem estereótipo. Quais são as inspirações? 
Thiago: Vem muito do seio familiar e do entorno. Vivemos num lugar em que todas as ruas têm uma "Mainha" e um "Júnior", o que já é muito engraçado e, por isso, as pessoas se identificam muito. Então, em bairros como a Liberdade, que é onde moramos, tem essa coisa com os vizinhos, da mãe que dá a "pagação" no filho na porta de casa para que os vizinhos ouçam também. Venho de uma família muito matriarcal, com essa relação em que respeitamos muito às mulheres, elas que dão a voz. A última palavra é da minha mãe. Não é medo, é muito respeito mesmo. Pedimos a benção, não levantamos a voz. É uma relação que não foi construída a base de porrada. É tradição. E hoje vejo que isso está se perdendo. Meus primos referem-se a minha Avó, por exemplo, de "você" e isso é muito louco pra mim.  
 

Sulivã: Tem muita gente que pergunta se minha mãe é assim (risos), mas ela é super quietinha, bem fofa. Minha avó que tem esse fervor. Costumo dizer que "Mainha" tem muito dela, primeiro porque minha avó é Yalorixá, que traz essa questão do matriarcado; da forma de conduzir a família, a casa. É uma mulher muito guerreira. O ator tem que ser malandro e pegar todas essas referências. Então, se você tá acordando de manhã cedo e vê uma mulher despachando na porta, são coisas que a gente vai pegando. São 23 anos encontrando essas mulheres. Marcio Meirelles sempre diz uma coisa: "O personagem é como um orixá, a gente não baixa, incorpora". Então, tem tudo dentro do nosso imaginário e do nosso corpo. Basta ativar essa energia.  


Com o sucesso, os desafios mudam a cada episódio? 
Thiago: A gente tá constantemente refletindo essa questão. Sempre quis que "Frases de Mainha" tivesse coisa nova a cada 15 segundos para segurar quem tá assistindo. Então, tem episódios que conseguimos fazer isso muito bem, outros nem tanto, pois é muita correria para gravar. Mas acho que o nosso principal desafio é não deixar uma caricatura pejorativa, sabe? Temos muito cuidado com isso, pois, querendo ou não, são dois atores e um deles vivendo uma mulher, nessa época de empoderamento; de se discutir o lugar da mulher e tal. Porém, acho que fazemos com muito respeito; não é cômico por ser cômico. Temos várias amigas feministas que abraçaram o projeto. Fora essa parte, acho que o outro desafio é trazer essa situação de mãe e filho com frescor; para que seja orgânico. A nossa chave de humor se baseia no dia-a-dia.  
 

Sulivã: É muito isso que Thiago disse. A nossa grande preocupação é também dar continuidade a essas frases de mainha, né? Como vou encaixar o que as mães querem dizer? É entender o que elas querem dizer. Acho que o nosso grande cuidado é fazer bem; fazer um humor que fale bem da gente.  


Qual a principal mensagem que o Frases de Mainha tenta passar para o público? 
Respeito aos mais velhos. 


Qual é o público de vocês? 
Thiago: É engraçado. Quando gravamos a primeira vez, saiu um "porra" e nos questionamos: "Mainha xinga?" Aí nos olhamos e pensamos: "Não, Mainha não xinga não". Tanto é que até hoje não tem palavrão, pois quando começamos a fazer quisemos arrebatar todo mundo; que qualquer criança pudesse assistir. 


"Frases de Mainha" contribui para que vocês reverberem o discurso de representatividade e aceitação?  
Thiago: De certa forma sim. Agora, por exemplo, estamos fazendo muita publicidade. E querendo ou não, somos quatro pessoas que vieram de um lugar periférico, gravando vídeos de forma independente, sem nenhum tipo de apoio. Então, hoje estamos com um nível de projeção que muitos artistas daqui de Salvador não conseguem alcançar. Não temos nem um ano e as pessoas nos param na rua. Isso é muito legal.  
 

Sulivã: Acho que o nosso projeto abarca muito tudo isso. Tem muito essa preocupação. No Bando de Teatro Olodum, aprendemos uma coisa que levamos pra vida: "A gente nunca fala mal do personagem. Falamos bem, pois gostamos dele. Ele faz parte de um recorte nosso". Então, "Mainha" é uma mulher preta, periférica, mas é empoderada, tem seu "carrão", e que cria "Júnior" sozinha, assim como milhares de mães solteiras. Existe todo um contexto social que abarca a história e falar disso com respeito é muito importante, pois é o humor que fala bem dessas camadas sociais. Acho que a gente tem que ser bem visto; todo mundo gosta de ser bem visto, né?  


Vocês fecharam parceria com o Governo do Estado para um leva de episódios promocionais, não foi? Já dá para ganhar um bom dinheiro com o projeto? 
Sulivã: Não viu que a gente veio de limousine, menino? (risos). 
 

Thiago: A relação com o governo é muito boa. Somos muito gratos por ter acreditado com muito pouco tempo de trabalho.  Não é um dinheiro ruim, mas o pagamento leva tempo para chegar, pois Governo é assim. Quanto ao YouTube, a gente ganha alguma coisa por visualização. No Facebook, estamos começando a usar como ferramenta de postagem. Temos um alcance muito grande lá... estamos buscando.  
 

Sulivã: Temos feitos alguns eventos, pockets shows e algumas viagens. Tudo vem muito do público que apoia a gente, né?  

Muitas páginas e youtubers quando começam a postar os vídeos das parcerias são criticados, pois as pessoas dizem que não têm mais a mesma graça... Vocês estão passando por isso? 
Thiago: As pessoas estão reclamando já. Acho engraçado, pois elas assistem "Games of Thrones", "How to Get Away with a Murder" e esperam um ano para voltar. Não podem esperar um ano para "Frases de Mainha" voltar com uma nova temporada? Ficam na agonia em cima da gente. (risos). Vão ter que esperar, pois agora a ideia é gravar tudo de uma vez e ir soltando semanalmente. Mas não temos haters. Sempre que sai um vídeo, vou lá acompanhar a repercussão, ai sempre tem alguém que diz: "ah não estou mais gostando porque agora é só publicidade". Só que vem outro e defende: "Gente, eles são artistas e precisam ganhar dinheiro". A gente não precisa nem se meter, eles mesmo se resolvem. Acho que no geral a recepção é muito positiva.  

 

Sulivã: É um projeto de fácil identificação e sabemos das cobranças. É normal.  


Quando começa a segunda temporada? 
Sulivã: A gente tá se organizando muito. Primeiro, porque estávamos envolvidos em outros espetáculos, como a amostra do prêmio Braskhem. Porém, estamos caminhando tudo para que em maio ou junho lancemos a segunda temporada.  
 

Thiago: Começaremos a gravar agora em maio e vai ser tudo de uma vez só. A ideia é que saia na mesma época da primeira temporada (29 de junho), que nem série americana faz. (risos) 


O elenco sofrerá alterações? Mais personagens? 
Thiago: Oh, posso adiantar que vai ter um irmão de "Mainha". Depois, vamos ter uma personagem que todo mundo sempre quis ver: Cíntia. Achamos que a mãe de Mainha também irá aparecer.  


Frases de Mainha vai para o teatro? Quando?   
Thiago: Vai. Fomos procurados no ano passado por algumas pessoas da classe teatral daqui de Salvador, mas não nos vinculamos a ninguém naquele momento, pois queríamos ter primeiro o projeto na mão. Agora temos essa estimativa. Queremos lançar em outubro.  

Com tanto convívio, vocês brigam muito? 
Sulivã: Olhe, eu e Thiago a gente só briga viajando e por uma única coisa: detesto com todas as minhas forças ar condicionado. Só que ele adora. 

Thiago: Quer dizer, vou ter que dormir naquele calor de Porto Seguro, sem ar condicionado, por causa dele? (risos) 


Sulivã: Ai já acordo no dia seguinte com a mão na garganta, fazendo aquele drama. Ele com essa mania de Rio Grande do Sul. Mas fora isso, somos muito amigos e irmãos.  


Até onde vocês acham que o "Frases de Mainha" pode chegar? 
Sulivã: Vamos até o Oscar, né? (risos) 
 

Thiago: Minha meta é um longametragem. Temos o espetáculo que, se Deus Quiser, vai rodar o país 


Quais são os sonhos de cada um? 
Thiago: Tenho muita sede de fazer mais e ocupar os espaços. Quero muito desbravar o audiovisual e me dignificar enquanto artista em Salvador. Temos muito essa cultura que artista aqui não vive, que é preciso ir para o Rio e São Paulo. Querendo ou não, estamos em um caminho de conseguir viver disso e aqui. Quero que isso aqui vire um pólo para que todos os artistas também possam.  
 

Sulivã: Tem uma música do Ilê Aiyê que diz assim: "Por isso, quero ver a coisa ficar preta. Por isso, quero ver o negro no poder". Acho que isso conta muito a minha história e o quanto quero para o meu futuro. Acho que, enquanto homem, preto, gay e da periferia, quero alcançar novas coisas. Quero estar, mostrar a cara. Além disso, quero um dia ainda ter uma ONG para abraçar essa galera jovem que vem sendo dizimada nas periferias todos os dias. Enquanto ator, quero mais espetáculos que falem da gente e desejo ir para TV também.