Raimundo Viana prega fortalecimento da base e quer Vitória com elenco 'valente e ganhador'

A série de entrevistas do Bahia Notícias com os candidatos à presidência do Vitória continua. Desta vez, o bate-papo é com Raimundo Viana, que dirigiu o clube entre março de 2015 e dezembro do ano passado. Viana apresentou seus projetos e prometeu fortalecer a divisão de base, além de tirar o projeto da Arena Barradão, bem como ampliar receitas. “Primeiro uma arena, segundo uma grande divisão de base para revelar valores e também enfrentar e ganhar competições. Em terceiro, uma grande estrutura de marketing, para ampliar o prestígio da marca Vitória. É preciso ampliar não só o quadro de sócios, mas também a captação de recurso via licenciamento de produtos. A nossa receita hoje é fundamentalmente de televisão. É preciso diversificar isso, ampliar as áreas de captação de recurso fora da dependência da televisão. Infelizmente, mais uma vez é uma administração curta, dois anos só, mas não podemos ficar preocupados como tempo curto, porque o trabalho já começa amanhã, depois da eleição”, afirmou. Viana ainda prometeu montar um elenco “valente e lutador”. “Vou redefinir critérios de gestão em áreas estratégicas do clube. Marketing, Sou Mais Vitória, futebol profissional, fazendo um time valente, lutador, ganhador, vencedor”, pontuou. 

 

O que te motivou a disputar à presidência?
Bem, eu tenho recebido, ao longo desse tempo que passei na presidência, apelos reiterados por onde eu tenho passado para não me omitir diante do que todo mundo considera uma necessidade imperiosa de redefinição dos rumos do nosso clube. Em um primeiro momento, seria mais confortável ficar na minha cadeirinha, assistindo meus jogos como torcedor. Entretanto eu não saberia como encarar aqueles que me fizeram esse apelo, e nem tampouco eu teria respostas para justificar a minha omissão nesse pleito. Eu fico muito feliz em ver manifestações desse tipo, inclusive de quem está aí e que foi colocado nessa posição em uma chapa adversária a minha lá atrás. Significa que eu sou uma espécie de mandacaru sem espinho, eu nunca torci para pessoas, sempre torci  para o Vitória. Se acham que eu tenho condições de mais uma vez emprestar minha força, minha dedicação, meu entusiasmo ao clube, eu estou respondendo presente. E digo mais, nenhum interesse de ordem pessoal, nenhuma vaidade de ordem pessoal, nada me move para esse cargo, que, aliás, já exerci por duas vezes. Poderia ficar no conforto da arquibancada, aliás, conforto coisa nenhuma, porque o que eu passei esse ano, vendo o Vitória jogar lá da minha cadeirinha, eu tive muito mais tristeza do que alegria, e isso também me motivou. 

 

O senhor demorou para lançar sua candidatura. Qual foi o motivo?
Não quis atrapalhar o futebol. O time ainda estava disputando a permanência na Série A. Eu já tinha decidido sair candidato, mas só quis divulgar depois do último jogo, assim como eu fiz na eleição passada.  Eu espero inclusive que todos aqueles torcedores que gostam do Vitória olhem para o  presidente que há pouco mais de um ano se afastou do clube, após uma gestão de pouco menos de dois anos, deixou o clube na situação em que ele ficou. Porque isso significa o seguinte, o Vitória não tem mais tempo de ter aventuras, é preciso refletir sobre o que já deu certo. O Vitória me rejuvenesceu quando fui presidente, e está me rejuvenescendo outra vez quando eu tenho a possibilidade de voltar a ser presidente dele. Eu tenho recebido manifestações muito carinhosas como está de Agenor, de funcionários, de jogadores, de ex-jogadores, do público em geral. Ainda agora, aqui no prédio do Bahia Notícias, alguém passou e me reconheceu “presidente, que alegria de te ver aqui”. Quando eu estava saindo domingo, do estacionamento, eu vi uma coisa que me doeu um pouco, vendo mocinhas recebendo dinheiro pelo trabalho honesto que realizaram entregando panfletos, e uma delas me disse “presidente, volta para o Vitória”, só faltou me dar o dinheiro como ajuda para minha campanha, que é uma campanha humilde, uma campanha simples. Eu não me reúno atrás de luxo, não me reúno em clubes de luxo, não faço festas. Eu já soube aí que vai ter festa de cantores famosos e tal, tomara que tudo isso seja canalizado com força em benefício do nosso clube, que não pode mais passar pela tortura que passou domingo. Se não fosse pela mão divina a gente estaria na segunda divisão. Aliás, nós passamos 30 segundos angustiantes na segunda divisão, mas a mão de Deus está sempre do nosso lado. 
Sua candidatura é independente ou tem apoio de algum grupo político?
Absolutamente independente. Eu tenho um grupo, “Vitória Cada Vez Mais Forte”, eu comandei esse grupo o ano passado, deveria ter comandado antes, fazendo política, mas eu deixei para o fim. Enquanto o Vitória estivesse lutando para se manter na primeira divisão, eu não falei em política. Aliás, eu quero deixar isso bem registrado, durante todo esse ano eu não tive uma palavra, um gesto, uma atitude de hostilidade com a administração atual. Por que? Porque estou de acordo? Claro que não. É porque eu acho que qualquer interferência de ordem política na periferia do clube tem interferência direta no desempenho da equipe, porque eu sofri isso, eu passei por isso ano passado, e eu jamais prestaria meu nome e minha experiência para coisas que não fossem canalizadas em benefício do clube. 


Foto: Renata Farias/ Bahia Notícias

 

Manoel Matos foi o seu vice-presidente. Qual o motivo de vocês não marcharem juntos neste pleito?
Veja o seguinte, eu um dia desses estava me dando conta de que essa é uma campanha que me envaidece. O Ricardo David foi meu diretor, o Manoel foi meu diretor, e eu fui o presidente. Então essa gestão sai vitoriosa, ou seja, uma gestão que dá condições de que integrantes dela postulem ao cargo maior do clube, é uma gestão vitoriosa, portanto, mais uma vez eu também me considero vitorioso. Eu sei que foi lá atrás, em situações muito adversas, mas agora as coisas não são muito diferentes, há problemas enormes a serem enfrentados. É preciso reequilibrar as finanças do clube, é preciso redefinir princípios sobre gestão em áreas específicas do clube, principalmente na área do futebol, a começar do profissional e em todas as divisões de base. É preciso você reestabelecer ou recuperar a autoestima do torcedor. Teve um cidadão que me disse o seguinte outro dia “presidente, eu tenho 20 anos que não vou ao Barradão e o senhor me fez voltar com alegria a assistir jogo no nosso santuário”. Isso para mim é motivo de alegria e extremo orgulho. De modo que o fato de estarem esses, os outros postulantes, em voo solo, a mim não me causa nenhum tipo de ressentimentos, nenhum tipo de preocupação, pelo contrário, espero que haja agora uma camapanha de tiro curto, curtíssimo, e você sabe que eu disse também esse ano, eu não me manifesto sobre política do clube enquanto o Vitória não estiver carimbado na primeira divisão. Tanto isso é verdade que eu só anuncie a minha candidatura, e aí sim passei a fazer política, depois do encerramento do fatídico jogo do Vitória contra o Flamengo no Barradão. 

 

Qual o principal pecado de Ivã de Almeida  no comando do Vitória na sua opinião?
Talvez, talvez não, com certeza eu não sou a pessoa mais indicada para esse tipo de avaliação. Eu não acompanhei de perto, mas acho que o principal pecado foi você vender uma mercadoria que não podia entregar. Criar uma expectativa muito grande na torcida, falou-se até em campeão brasileiro. Falaram em bicampeão brasileiro, Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro da Série A, mas na verdade a gente se contentou com um campeonatinho estadual meia boca, porque foram dois empates no Bahia, e eu, que sempre fui um grande vencedor de Ba-Vi, ser campeão com dois empates não foi bom. E outra, eu acho que as contratações não foram felizes. Eu não sei se algumas transferências foram oportunas, tipo Marcelo, o empréstimo do Ramon. Não sei também se foram empreendidos os necessários esforços para o Marinho ficar, porque a ideia é você ter contratos permanentes para não acontecer de mudar o time todo cada ano. Você tem que fazer contratos de longa duração, para que no ano seguinte você precise de retoques, mas não de uma reformulação total. Eu fiquei assim meio boquiaberto quando eu ouvia falar “Está chegando um caminhão de jogadores para o Vitória. É Pisculichi, Pisculete, não sei o que, chiclete, diabo a quatro”. Será que essa gente sabe onde é o Barradão? Será que essa gente sabe o que é o Vitória? O tamanho do Vitória? A importância do Vitória? Errar em contratações faz parte do jogo, mas errar tanto não faz parte. Também o aproveitamento da nossa base, salvo o Caíque, o David, o Zé Welison graças a Deus se recuperou, e aí como não tinha outro, acho que botaram ele, mas isso é fundamental. Eu ouvi aí outro dia alguém dizer que o Vitória precisa ter uma base não para ganhar títulos, mas para fechar o caixa, para vender jogadores. O Vitória não é uma casa de comércio, é uma instituição esportiva, para disputar competições e ganhar competições. Então eu acho que também não houve o necessário prestígio para nossa base. Graças a Deus os meninos estão aí, já ganharam Ba-Vi e vão ganhar os dois títulos. O Sub-20 foi para Aracajú e ganhou o bicampeonato da Copa Nordeste Sub-20, porque o primeiro título ganhamos ano passado contra o Náutico. É claro que nós queremos título, mas é claro também que queremos revelar valores. Em um só tempo você tem condição de baratear o custo dos profissionais, como também, eventualmente, fazer negócios com transferências de atletas, permutas e etc. 

 


Foto: Renata Farias/ Bahia Notícias

 

O projeto Arena Barradão foi lançado pelo senhor e o Manoel Matos. Isso sairá do papel?
É o seguinte, eu tenho duas coisas que me agradam. Duas não, três. A primeira é deixar o Vitória com seis campos de treinamento, sendo cinco de grama natural, com uma drenagem espetacular em dois deles, e um de grama sintética. Isso me agradou muito, porque eu me senti muito humilhado quando uma certa feita Mário Silva virou para mim “Presidente, você tem que entrar no circuito aí junto com o pessoal de Pituaçu, porque estão criando alguma dificuldade para o Vitória treinar”. Um time com a dimensão do Vitória não pode estar com a cuia na mão pedindo lugar para treinar, isso não é possível. Então nós tomamos a iniciativa de dotar o Vitória com campos de treinamento para todas as suas categorias e preservar o Barradão, que foi repaginado. Outra coisa que me orgulha muito é ter conseguido que o Governo do Estado entendesse as necessidades do Vitória a autorizasse a construção da Via Expressa Barradão. Aquilo ali para mim é o grande holofote para o crescimento do Vitória. Uma pista extraordinária que vai facilitar incrivelmente a o acesse ao Barradão. Já não tem mais aquela tortura de você chegar ao Barradão em dias de jogos. Isso tudo vai desaparecer, acredito que ano que vem a coisa será inaugurada e será de muito proveito para nós. Outra coisa são aqueles equipamentos da prefeitura no entorno do Barradão, a Praça da Juventude e a Estação de Transbordo, aquilo vai melhorar extraordinariamente a vida do clube. Terceiro, quem como eu acompanhou o início do Barradão não pode ser contra a sua ampliação. Uma coisa que ficou muito mal esclarecida, até mesmo porque não nos preocupamos em fazer os rebates das acusações, é em relação aos custos daquilo ali para o Vitória. Não tem custo nenhum, o custo para nós foi para o projeto, custo esse que quando for feita a captação de recurso no mercado, dos investidores para a construção de uma arena, será embutido para retorno aos cofres do clube. Não é o Vitória que está bancando com o dinheiro próprio, porque não tem. O Palmeiras não teve, o Corinthians não teve, o Atlético-PR não teve, é investimento, é recurso da iniciativa privada. Salve quem teve sorte como o Corinthians, que um ex-presidente deu todas as condições para construir o Itaquerão, que não é do Corinthians, na verdade ainda é do BNDS, mas de qualquer forma, quando você fala Itaquerão, entende-se Corinthians. Os clubes que fizeram arenas passaram a ser vitoriosos nas competições. O Palmeiras está aí como exemplo, o número de sócios cresceu depois da arena. O Corinthians está aí também, o Atlético-PR idem, e assim por diante. O próprio Flamengo, que eu ouvi uma entrevista um dia desses do presidente, e ele disse que o Flamengo tem um projeto de fazer uma arena. O Santos lá na Vila tem um projeto, todo mundo tem esse projeto. Agora, em nível de prioridade, o projeto Arena Barradão está em fase de aprovação nas escalas da prefeitura e eu não sei porque isso não andou, porque inclusive não é um projeto meu, é um projeto do Vitória, o presidente que quiser chegar e colocar o projeto para frente, já está ali o projeto pronto. Eu sonho com a Arena do Vitória, tudo que interessar ao Vitória não vai ficar encostado. 

 

Existe a possibilidade do Vitória ter uma diminuição de receitas na próxima temporada. Como trabalhar com um orçamento mais enxuto?
Deixa eu ver aqui, a minha ideia sobre esse assunto é um pouco diferente. Eu não penso em redução de orçamento. Uma coisa é orçamento, outra coisa é excesso de receita. Eu vou trabalhar em cima de um orçamento que deve ser maior que o do ano passado. Se eu vou ter saldo para investir no mercado é outra história, mas que o orçamento...claro que você tem que ajustar certos custos seus, mas evitando aí desperdício. Você precisa ser rigoroso para gastar dentro daquilo que foi orçado, havendo superávit de receita, você vai para o conselho pedir alteração para gastar mais. Por exemplo, a folha do Vitória era de 3 milhões e alguma coisa, vamos reduzir para 500? Não. Se for possível vamos ficar em 3 milhões, ou mais, agora gastando com mais competência, com mais cuidado, mais eficiência. 

 

Qual a sua principal proposta?
Basicamente eu tenho três propostas. Eu acho engraçado aqueles currículos, você chega na empresa, manda fazer seu currículo e quando a gente olha é uma maravilha. Eu não raciocino desse jeito. “Eu vou internacionalizar a marca”. Aonde? No Chile? Na Argentina? Na Espanha? Na Inglaterra? Bom é um sonho. “Eu vou profissionalizar o clube”. Isso é muito vazio. O que é profissionalizar o clube? Nós fizemos isso, nós tivemos um gestor administrativo financeiro, um gestor na área de marketing, no futebol profissional, no futebol de base. Devemos avançar nessa profissionalização? Sim. Não há dúvida. Se fala também na excelência da captação. Quem inaugurou o Centro de Excelência no Vitória fomos nós. Você tinha respostas instantâneas sobre os jogadores. Onde joga, quanto ganha, quantos cartões recebeu, quem é o pai, quem é a mãe, qual é o comportamento dele extracampo, se bebe, se não bebe, qual é o salário dele, porque não adianta você fazer o levantamento de Neymar, e cadê o dinheiro para pagar Neymar? Eu quero saber qual é o jogador que está jogando Benfica, ele é o segundo reserva? O nome dele é esse, um determinado agente te fala dele, você vai lá no Centro de Excelência e ele vai te dizer quem é, entendeu? Mas isso também não dispensa eventuais observações suas, você está vendo jogos do Guarani, do Ceará, você entende um pouco de futebol, você tem condições de sentar com sua equipe técnica e fazer uma análise desses jogadores que interessem. O Vitória está atento para o mercado, mas atento significa exatamente estar por dentro do mercado, saber suas possibilidades também. É fundamental nesse particular você despender muito esforço para errar o mínimo possível, porque o erro é do jogo, é da atividade. Voltando a história do projeto bonito, a necessidade a gente até conhece, mas não conhece bem é como fazer. “Eu tenho uma empresa que pode aportar no Vitória R$ 100 milhões”, mas e aí? O Vitória vai pagar como? “Tenho um banco que pode emprestar tanto”, sim, mas a que juros? Tem que fatiar um pedaço do Barradão para pagar? Para encurtar a coisa, eu tenho três objetivos básicos, três só. Claro que isso vai ser discriminado.  O primeiro, saneamento das finanças, equilibrar as finanças. Ou seja, procurar fazer cada vez mais, com menos, mas sem também sacrificar os objetivos do clube. Como eu falei, eu não vou reduzir orçamento, eu posso não ter sobra de orçamento, mas reduzir por que? O Vitória vai recurar? Não. Segundo, redefinir critérios de gestão em áreas estratégicas do clube. Marketing, Sou Mais Vitória, futebol profissional, fazendo um time valente, lutador, ganhador, vencedor. Mas não só no profissional, Sub-20, Sub-17, Sub-15. Eu não diria que é fácil, mas é muito mais fácil de quem viveu e já fez, que quem não viveu e ainda não fez. Se você já viveu e já fez, você sabe o caminho, é só ter um pouco mais de lucidez, errar menos. Terceiro, você tem que valorizar o seu patrimônio, especialmente o nosso santuário, essa é a nossa casa. Eu até brinquei um dia desses e disse que por ventura iria olhar, se é que ocorreu, se enterraram alguma cabeça de burra no Barradão, porque esse ano eu nunca vi a coisa dar tão errado. Em quarto lugar restaurar a autoestima do torcedor. Só isso, dar melhor conforto, mais acessibilidade, mais atenção ao sócio, essas coisas aí. 

 

E a divisão de base? Quais os seus projetos?
 Eu sempre disse e vou repetir para você. Um clube de futebol, para se propor a ser grande, ele deve ter três coisas. Primeiro uma arena, segundo uma grande divisão de base para revelar valores e também enfrentar e ganhar competições. Em terceiro, uma grande estrutura de marketing, para ampliar o prestígio da marca Vitória. É preciso ampliar não só o quadro de sócios, mas também a captação de recurso via licenciamento de produtos. A nossa receita hoje é fundamentalmente de televisão. É preciso diversificar isso, ampliar as áreas de captação de recurso fora da dependência da televisão. Infelizmente, mais uma vez é uma administração curta, dois anos só, mas não podemos ficar preocupados como tempo curto, porque o trabalho já começa amanhã, depois da eleição.