Quanto vale um 'Amor Barato'?

“Qualquer semelhança não é mera coincidência”. É com este aviso que se inicia o espetáculo “Amor Barato”, que entra em cartaz na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, nesta sexta (9), às 20h. E não é mesmo! A montagem, inteiramente musical, conta a história de amor entre Dona Baratinha (Vanessa Mello) e Dom Rato (Ciro Sales). Mesmo sendo inspirada em uma fábula infantil, a trama é uma tragédia horrorosa – como bem define uma das personagens – sobre os valores morais da sociedade contemporânea: pedofilia, corrupção, degradação das relações familiares e briga pelo poder. Segundo o diretor Fábio Espírito Santo, a ideia de fazer um musical surgiu desde o início do processo de escrita da peça, em 2010, e sempre esteve aliada à vontade de fazer um texto contemporâneo. “Não queria que os temas atuais fossem discutidos em profundidade, afinal o próprio gênero ‘musical’ não permite. Mas eu sempre achei que o teatro tem a função de refletir a sociedade e lidar com aqueles mesmos temas que estão nas revistas, nos noticiários, na internet. Se eu pudesse fazer um teatro diário, um teatro jornalístico...”, desejou o dramaturgo, que também é formado em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Mas qual é mesmo a relação entre uma história de amor de um rato e uma barata com a sociedade contemporânea? “Quando olhei os temas, lembrei da expressão  ‘Você é um rato!’ e relacionei a história com a fábula de ‘O Casamento da Dona Baratinha’. Precisava de uma história de amor para que o espetáculo não fosse apenas esgoto. Foi uma estratégia dramatúrgica”, resume Espírito Santo. 
 

Foto: Divulgação/ Adenor Gondim

 
Mas o amor, em “Amor Barato”, é muito mais que uma estratégia para tirar o espectador do mal-estar de se ver confrontado com todas as mazelas sociais expostas na mídia cotidianamente. No espetáculo, o amor, mesmo sendo barato diante de uma sociedade com os valores corrompidos, é mesmo o valor mais nobre ali presente. “Eu tento, de alguma forma, dizer que mesmo em um esgoto é possível haver amor, é o amor o sentido de tudo. Mesmo sendo esta uma moral meio piegas, é nisso que acredito”, aposta o diretor. Na trama, Dona é uma dondoca fútil e vulgar, filha de um mega-empresário da comunicação pedófilo, e Dom é um delinquente juvenil – daqueles que queimam mendigos e espancam prostitutas –, filho de um senador corrupto.  Apesar de se passar nos bueiros de uma grande metrópole, a história não fala sobre um assunto marginal. “Na montagem eu não falo de um assunto marginal, mas de uma marginalidade, uma marginalidade burguesa, de uma classe média e alta”, diferencia Espírito Santo. “O espetáculo é como se fosse uma vitrine às avessas, que está para dentro, um espelho d’água, que reflete essa sociedade que está bem doente", finaliza.
 
Os ratos e baratas de “Amor Barato” não são caracterizados como os ratos e baratas reais que circulam pelos esgotos. Com um figurino rico - desde a maquiagem aos tecidos e apliques de cabelo - e um cenário enxuto, Fábio Espírito Santo criou, ao lado de Rino Carvalho (figurinista) e Rodrigo Frota (cenógrafo) um mundo particular. “Eu não queria que os ratos e baratas fossem ratos e baratas, com rabinhos e asinhas, respectivamente - embora até tenha alguns desses elementos. E eu queria uma beleza estética, nada de roupa rasgada, nem lixo, eu queria luxo. Costumo brincar dizendo que o figurino é um barroco-futurista e a cenografia é uma Palafita Fashion Week. Eu queria a ideia das palafitas para remeter à ideia de labirintos, formados pelos canos, que esse esgoto tem”, explica o diretor.
 
A iniciativa de abandonar os diálogos e apostar em um espetáculo inteiramente em lírica surgiu no meio do processo de escrita do texto. “Foi muito difícil fazer o texto todo em lírica, afinal não é só canção, é uma canção narrativa, que deve contar algo. Eu escrevo há muito tempo, tenho uma incursão na poesia, mas não me considero poeta, sou dramaturgo. Quando eu fui fazendo as cenas, eu fiquei atento ao clima delas, dos personagens e eu inventava uma música para eu poder fazer a métrica. Eu compus esse espetáculo todo na cabeça”, conta o diretor, que já tinha feito um musical infanto-juvenil, no formato diálogo-canção, intitulado “Do Outro Lado do Mundo” (1999). Os músicos Ronei Jorge e Jarbas Bittencourt assinaram as melodias das composições feitas pelo diretor e, nesse processo, refizeram e diminuiram bastante o texto. No palco, uma banda, formada por Leonardo Bittencourt, Mauricio Lourenço e Ricardo Caian, dá ritmo aos vários momentos do espetáculo, que tem uma hora e meia de duração. Na coreografia, Ana Paula Bouzas foi responsável por dar vida e movimento aos ratos e baratas. “As três áreas [direção musical, coreografia e direção geral] estão muito juntas nesse tipo de projeto. O meu trabalho de direção, interfere na composição, que interfere na coreografia”, conta Espírito Santo sobre o trabalho em equipe. 
 
Os 11 atores que estão no palco foram selecionados entre 210 candidatos que se inscreveram para a audição pública para a 18ª montagem do Núcleo do TCA. Três etapas compuseram a seleção que priorizou o canto, em seguida o canto e a dança e, por último, o canto, da dança e a interpretação. “Foi bem difícil e foi bem bom fazer a seleção, porque a gente viu que os atores baianos estão em um nível muito bom. Muitos não eram bons para esse tipo de espetáculo. Além disso, eram poucas as vagas”, constata o diretor, que define “Amor Barato” como o meio-termo entre Broadway, já que não tem brilho, sapateado e não se configura pelo glamour, e o teatro de revista propriamente dito.
 

 
O edital do Núcleo do TCA, no valor de R$ 300 mil promove, além da montagem, a viagem por quatro cidades do interior baiano, são elas: Feira de Santana, Itabuna, Santo Amaro e Vitória da Conquista. Segundo Espírito Santo, esta é uma verba boa para um espetáculo, mas não para este tipo de montagem. “É óbvio que um espetáculo desse custa muito mais. A gente está com uma equipe de 11 atores, tem músico em cena e tem o aluguel diário de equipamento de som. Óbvio que se a gente não contasse com a ajuda de outras empresas, não rolaria”, explica. 
 
Todas as sextas, sábados e domingos até o dia 15 de dezembro, o espetáculo será apresentado na Sala do Coro do Teatro Castro Alves (sempre às 20h), com ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). A classificação indicativa, que antes era de 18 anos, foi reduzida para os 16.