Assassinato no Expresso do Oriente deixa de lado o mistério e cria foco em drama ético

Uma das histórias mais famosas da escritora Agatha Christie, o Assassinado no Expresso do Oriente retorna aos cinemas em mais uma adaptação que conta com atores de renome em Hollywood para trazer uma versão menos detetivesca e mais focada para os seus protagonistas e uma mensagem ética sobre vingança e motivação.

 

Dirigida por Kenneth Branagh, que também produz e atua como o protagonista da trama, o detetive Hercules Poirot, Assassinato no Expresso do Oriente se passa durante um incidente ocorrido no tradicional trem, no qual um passageiro é assassinado e o famoso detetive belga precisa desvendar qual dos outros integrantes da viagem é o culpado. Dentro desta sinopse básica, desenrolam-se revelações e mistérios que nos falam mais do passado obscuro da vítima e dos suspeitos.


Mas apesar deste universo formado por uma história secreta e um conjunto de pistas, muito pouco do que fez Agatha Christie e Poirot tornarem-se ícones da investigação é levado para esta nova versão cinematográfica. Com o intuito de levar mais ação a narrativa e valorizar a motivação de cada um dos envolvidos, o filme torna-se raso para criar um espirito de intriga e uma mínima linha racional dos fatos apresentados. Sendo assim, cria-se pouco envolvimento com o verdadeiro mistério, não deixando espaço para que o espectador tente desvendar o segredo da história e dando ao protagonista uma dedução quase paranormal ou mágica para quem assiste a película. 


E por não se concentrar no espirito investigativo, o Assassinato no Expresso do Oriente se dá ao luxo de criar uma linha narrativa que não só é desconhecida para aqueles que conhecem a obra original – ou suas adaptações anteriores – como também para quem apenas se atenha apenas a este produto. Ao seu final, uma discussão ética rompe a coerência criada dentro do próprio filme e enfraquece principalmente o seu grande personagem principal. A atuação de Branagh, louvável pela caracterização excêntrica e carismática de Poirot, se esvazia muito aos minutos finais e cria um clima de decepção pelo desfecho fraco e bem duvidoso em termos de coerência. Já o restante do elenco – formado por artistas como Judi Dench, Penélope Cruz, Josh Gad, Leslie Odom Jr., Willem Dafoe, Michelle Pfeiffer e Daisy Ridley – não apresenta grandes destaques e acaba muito mais ligado a uma superficialidade do que a interpretações que agreguem valor a película. 


Ao final de tudo, o Assassinato é um filme bem elaborado esteticamente, mas que falta identidade para além de caracterizações e uma boa ambientação. O que é uma pena para o legado de obras tão bem elaboradas como as que foram escritas por Agatha Christie.