Mesmo com excelente mensagem, ‘Mãe!’ sucumbe em execução duvidosa e cansativa

Segundo o cineasta Martin Scorsese, o cinema é “a importância do que está dentro do quadro e o que está fora”. E, dentro desse contexto, não podemos ignorar que são infinitos os valores simbólicos que são transmitidos por essa mídia, valendo-se de distintos graus de concepção para levar o seu público ao maior número de interpretações possíveis. Como disse Federico Fellini: “No verdadeiro cinema, cada objeto e cada luz significa alguma coisa, como em um sonho”.


Para falar de “Mãe!”, novo filme de Darren Aronofsky, é preciso entender que esta é uma película que se adequa perfeitamente na exaltação da simbologia e da metáfora para se valer compreensível na sua execução. Ao contar a história de um casal, formado por uma esposa dedicada (Jennifer Lawrence) e seu marido poeta (Javier Bardem), somos colocados em um universo limitado pelas paredes e estruturas de uma casa recém-construída, berço de um projeto que parece unir e solidificar o casal. Entretanto, a chegada de um casal de estranhos (Ed Harris e Michelle Pfeiffer) e os consequentes atos que essa visita ocasiona criam um turbilhão de eventos que transformam totalmente a vida dos dois protagonistas.


Em um primeiro momento, com uma narrativa lenta e bastante minuciosa, somos levemente inseridos em uma narrativa que já demonstra estar além do que apenas a primeira camada de imagens e palavras transmitem ao espectador. Com valores simbólicos que remetem tanto ao processo criativo artístico quanto os valores religiosos e sociais, nos quais a figura feminina muitas vezes simboliza a concepção, o cuidado e a inspiração, assim como a nossa própria ideia de lar, de planeta. A Deusa que virou mãe e que mais tarde se tornou a Virgem, sempre em seu papel de compreensão infinita e eterna dor. A musa abandonada após cumprir o seu papel de arquétipo do belo. A mulher e o feminino.


Temos uma analogia bastante forte sobre o papel humano e a forma em que a sua forma caótica de lidar com o mundo pode modificá-lo e alterá-lo para sempre. Essa é a grande e forte mensagem que o filme carrega e que infelizmente se perde no devido momento em que o véu da metáfora é desfeito e se apresenta de forma nua em uma virada estafante ao qual o filme se transforma um dado momento.


Falar mais do andamento deste filme é sem dúvida estragar a grande surpresa na qual esta obra se prepara para vomitar ao público, com a pretensão de ser um soco no estomago ao seu espectador. No entanto, é aqui que assistimos uma maçante transformação que reduz totalmente o valor da obra e a faz se tornar uma chacota de si mesma. Alegorias passam a se tornar uma realidade dura e gratuita, fazendo uma metalinguagem ao próprio produto e seu diretor, agora inteiramente inserido no corpo do poeta em busca de fama e adoração. “Você não me ama, você ama o meu amor por você”, diz a jovem esposa.


Ao final, temos um cansaço visual e narrativo que se demonstra até intencional, com base em todo o caminho seguido de seu início ao previsível final. Entretanto, isso não inocenta o fato de que "Mãe!" é mais pretencioso do que realmente se propõe e afunda toda uma forte poesia visual em um didatismo que desmerece o próprio público.