Com pitadas de terror, ‘It: A Coisa’ é uma macabra aventura juvenil contra o medo

Clássico livro do escritor Stephen King, “It: A Coisa” chega aos cinemas de todo o Brasil em sua segunda releitura para o formato audiovisual. E diferente do que aconteceu na versão dos anos 90 – inicialmente uma série que foi levada para as telas – temos nesta obra um foco totalmente voltado para a primeira metade da história: uma aventura juvenil que sabe utilizar do terror para criar um conto de amizade e superação.


Dirigido pelo argentino Andrés Muschietti, ‘A Coisa’ se passa no verão de 1989, quando sete amigos da pequena cidade de Derry, nos EUA, decidem investigar o desaparecimento de crianças na região e se deparam com um mal ancestral na forma do palhaço Pennywise (Bill Skarsgård), que utiliza do medo para dominar e assassinar as suas vítimas.


Com elementos de terror, o filme passeia pelo gênero, mas não o tem totalmente como seu. Na verdade, o que realmente movimenta a película como história é o seu foco no grupo de garotos (chamado Perdedores) e sua jornada de amadurecimento em frente aos dramas e temores vividos em uma infância conturbada e cheia de percalços. Todos os personagens apresentam traumas da vida real que se entrelaçam com as investidas sombrias do palhaço e os fazem questionar o seu próprio papel de enfrentamento a estes temores.


E é dentro deste panorama, bem-conceituado e com doses relevantes de violência psicológica ou física, que temos o bom uso de cenas que mesclam a dura realidade ao pesadelo surreal utilizado pelo aterrorizante palhaço. Uma coletânea que não se preocupa com sustos ocasionais, pois entende o seu papel de dar densidade gradual a trama e fazer o espectador se tornar mais próximo do mundo vivido pelos personagens.


E essa identificação se torna mais fácil por conta do talento dos atores-mirins presentes no filme. Dentre eles, vale destacar Jaeden Lieberher (George), a atriz Sophia Lillis (Beverly), Finn Wolfhard (Richie), conhecido pelo seu papel na série Stranger Things. Aliás, vale destacar que muitos verão proximidade nas histórias de ‘A Coisa’ e a obra da Netflix. Isso porque o livro de King, assim como tantas outras obras sobre garotos aventureiros nos anos 80, serviram de base para a construção do seriado norte-americano. Em relação ao vilão, Bill Skarsgård traz um toque especial para o palhaço Pennywise e se torna tão marcante quanto a versão dos anos 90, interpretada por Tim Curry.


Se no começo temos uma obra que parece dispersa – pois não cria densidade habitual do terror e já “entrega” o vilão desde a sua primeira cena – o grande trunfo do filme é fazer com que o espectador entre neste universo pouco a pouco, pelo olhar de seus habitantes, para entender a lógica que dá a gravidade e o temor de um inimigo que espreita os seus maiores medos para te vencer.