Em meio ao espirito dos anos 1980, 'Atômica' explora o que há de melhor nos filmes de ação

Lembro como se fosse hoje. Posso não recordar a data de cabeça, mas ainda estão bem claras na minha mente as imagens da Queda do Muro de Berlim, ocorridas no final do ano de 1989. Tinha apenas sete anos, mas já entendia que muito do mundo que conhecia, ou ouvia falar, seria totalmente diferente a partir daquele ato simbólico que representava a unificação alemã e o enfraquecimento da Cortina de Ferro. Um clima anterior de incertezas e medo, que se transformou em uma mensagem de otimismo para a efervescente juventude dos anos 1980.

 

E foram nesses dias que antecederam a Queda do Muro, com intrigas e temores sobre os rumos da Guerra Fria, que o diretor David Leitch ambienta o filme "Atômica", um thriller que sabe utilizar das referências sensoriais deste período para escrever mais um interessante capítulo nas películas modernas de ação.

 

Estreando nos cinemas de todo o Brasil nesta quinta-feira (31), "Atômica" tem como protagonista a audaciosa e sensual agente britânica Lorraine Broughton (Charlize Theron). Enviada a Berlim pelo Reino Unido, a oficial terá que solucionar o assassinato de um colega em missão na capital alemã, além de recuperar uma lista perdida de agentes duplos antes da iminente queda do Muro de Berlim. Mesmo com a ajuda do David Percival (James McAvoy), Broughton terá que contar com apenas a sua intuição para saber quem são seus verdadeiros aliados e inimigos na operação.

 

É dentro dessa instigante colcha de retalhos – envolvendo americanos, ingleses, soviéticos, franceses e alemães – que temos um filme movimentado do início até o fim com muita ação e uma potente trilha sonora recheada com músicas marcantes do final dos anos 1980 e início dos 1990. Nos últimos tempos, não é novidade a integração destes dois elementos, principalmente com canções referenciais de décadas passadas. E este é um dos filmes que demonstra a força deste recurso, pois não só integra os sons a momentos específicos da trama como também consegue dar densidade a narrativa que é vista na telona.

 

E se a trilha sonora já é um destaque a parte, as sequências de ação são outra boa justificativa para apreciar o filme. Ex-dublê, o diretor David Leitch demonstra muita inteligência na construção das cenas de combate, com uma bom uso dos ambientes e uma preocupação para tornar a conflito o mais próximo possível do real, com marcas e hematomas presentes nos oponentes.

 

Além disso, Leitch utiliza o que existe de mais atual na narrativa das lutas corporais, sem medo de  recursos como planos sequência (cena filmada sem cortes) ou perspectivas que permitam surpreender o espectador pelo simples fato de não mostrar o movimento de objetos até que cheguem de encontro ao seu alvo.

 

Nas atuações, Charlize Theron mais uma vez não decepciona e se consolida como uma das melhores atrizes de ação da atualidade. Assim como faz com a Imperatriz Furiosa, em Mad Max, sua Agente Broughton tem identidade e consegue segurar a história, assim como James McAvoy e seu controverso agente Percival. Ainda temos na película os atores John Goodman, Til Schweiger, Eddie Marsan e Toby Jones, com a atriz Sofia Boutella completando o elenco.

 

Para além de uma boa história de espionagem, que sabe o seu papel e faz um interessante apanhado histórico para enriquecer a trama, Atômica funciona com excelência em suas cenas de pancadaria para dar um instigante thriller com todos os recursos dos filmes deste gênero no século XXI.