ESPUMAS

a Roniwalter Jatobá, Carlos Machado, Ângelo Roberto e todos os que uma vez navegaram,
ou navegarão,
nestas espumas.

 
 
 


 
Na varanda,
como em todo fim de tarde,
olhando o mar
e fazendo rimas entre as espumas das ondas
 (como dizia a si mesmo
sorrindo),
e o seu espumante brut
predileto.
 
Espumas no mar,
na taça,
espuma da quimera,
do tempo,
contos da vida,
sobretudo coisas de mulheres
 e de mortos, 
estes cada vez mais vivos e constantes,
carinhosos e atentos
ao que ele lhes conta de novidades  
d’aquém-túmulo.
 
(E que,
por sua vez,
não contam nada das espumas
da eternidade.
Mas ele não se importa:
um dia saberá tudo,  se é que haverá  algo mesmo
para saber...)
 
Quanto às mulheres, algumas
de modo puro e amoroso,
outras trazendo relâmpagos,
naufrágios,
estas contra as quais
não funciona nenhuma defesa,
nem mesmo a Maravilha Curativa do Dr. Humphreys,
com a poderosa Hamamelis Virginiana L,
que provou a ele milagres desde a era dos avós.
Sim, porque imbatível o poder dessa Eríneas,
Nêmesis,
de que nem os deuses podem
escapar.
 
Ah, tantas visitas nessas espumas
onde, agora, navega o capacete
que o escritor Roniwalter Jatobá usara no serviço militar,
depois do golpe de 1964,
quando,
devidamente ataviado como herói das trincheiras,
fora à redação de um jornal,
levando ordens de proibição de opiniões e notícias.
Logo chamara a atenção ao chegar à entrada do vespertino
(que, curiosamente, saía
– como ainda sai –
de manhã...),
desembarcando de sinistro automóvel negro,
dos que costumavam servir aos generais,
e subindo, coturnos arrogantes,
os muito degraus do prédio. Mas nervoso,
tão nervoso
que em certo instante se bateu de mau jeito
[numa passagem
e o capacete decolou de sua cabeça,
voou um tempo,
depois mergulhou e começou a quicar sonoramente
[nos degraus.
 
O gesto foi ágil para recuperá-lo,
mas o objeto tinha vida própria,
de ênfase castrense,
e apurou o ritmo,
cada vez mais marcialmente galopante,
interrompendo a rotina do prédio,
atraindo todos os funcionários às portas das salas
e lá ia ele,
com desempenho excelente de sua natureza quase esférica,
degrau a degrau,
lance após lance,
e seu proprietário atrás,
já ofegando,
e logo cintilaram risadas,
depois vaias,
prédio abaixo,
até que o fugitivo hesitou e foi apanhado
e o soldado cumpriu apressadamente sua obrigação,
de novo subindo e descendo as escadas,
vermelho do esforço e de vergonha,
constatando na alma como aquela gente
detestava o seu jeito de vestir,
pelo que representava.
 
Mas eis que não há capacete
nas espumas
e nelas navega o antigo recruta
(agora já contista laureado)
ao longo do tempo
e de súbito está numa salinha fria
tendo só de companhia o poeta
Carlos Machado,
editando um jornal em plena madrugada,
atento a qualquer ruído,
porque recrudescia a repressão
e aquelas páginas eram particularmente odiadas por ela,
pois lhe expunham implacavelmente a ignorância,
[a estupidez,
as perseguições, os sequestros, as torturas, os
assassinatos, as ocultações de
cadáveres, e se ele fosse surpreendido ali,
melhor nem pensar.
(Mesmo porque,
dada a vasta safra de delações,
seu nome lembrar a alguém
que um dia vilipendiara publicamente
um símbolo impoluto das gloriosas forças
salvadoras da democracia...)
 
Novas espumas no mar
e na taça.
E a tarde lhe traz aquele outro amigo,
o artista Ângelo Roberto,
que, ao saber que o novo Papa se chamaria Francisco,
ficou emocionado,
pensando em seu tão amado Francisco de Assis, irmão
do Sol,
da Lua,
das Estrelas,
dos Pássaros,
de toda a Criação.
Ah,
e o novo Papa com aquele nome,
pensou o artista,
sem dúvida intercederia por ele junto ao
Poverello,
para que finalmente conseguisse vencer
o que o vinha subjugando
desde a adolescência.
E eis que a partir do dia seguinte,
após 60 anos de esforços fracassados,
não acendeu um cigarro,
nunca mais.
 
Es tava convicto: fora o primeiro milagre
do Papa. E ele iria a Roma, sim,
para prestar depoimento,
deflagrando a elaboração das provas que um dia,
pesadas,
medidas,
contadas,
adornariam também com auréola de santidade
o novo Francisco.
 
E espumas, espumas, espumas...
Na tulipa de cristal
e lá fora,
rimas de prata e diamantes
sobre o ouro das areias
da praia.
 
E ele, mais uma vez,
cerra o olhos.
E então recebe, como sempre,
para fechar o dia,
a infância
em sua cálida e suave
maresia.