CONVERSA DE RUA

CONVERSA DE RUA
 

 
 
– Não sei como vou conseguir pagar a faculdade da minha filha.
– Fique tranquila, meu bem. Deus é FIES.

 
 (Tudo verdade, fragmentos de papos entreouvidos nas ruas, becos, ladeiras e bares de Salvador. Micro Jornalismo. Assino e dou fé)
 
 
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- O cara lhe xingou de tudo, de filho da puta, veado, gillette, boqueteiro, travesti, punheteiro dos outros, engole gala, chibungo, proxeneta, o que deu na veneta, e, você não disse nada?!
- É que respeito a liberdade de expressão.



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- Qual a diferença entre a poesia, a filosofia e o romance?
- Na poesia, você pode perguntar se a vida é mesmo isso. Na filosofia, esta indagação é imanente, a própria essência, a voz primordial, por assim dizer.
- Caramba! E no romance?
- Oferece a vida já pronta e embalada, com todas as dúvidas existenciais. 


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- Você sabia que hoje, 16 de novembro, se comemora o Dia Internacional da Tolerância, instituído em 1996 pela Unesco?
- Não. E daí?
- Isso quer dizer que, pelo menos hoje, você tem que tolerar Temer, Bolsanaro e os protofascistas do MBL...
- Saí daqui, vai...
- Por quê?
- Não tolero esse papo...


 
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- Esse ano a palavra escolhida foi fake news. Que palavra você escolheria?
- Todas, se bem usadas.



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- Se você não fosse filósofo, gostaria de ser o quê?
- Marceneiro.
- Marceneiro?!
- É. Para polir a tábua agreste da vida.



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- Tá vendo aquele cara passando ali?
- Tô. E daí?
- Ele enlouquece as mulheres.
- Ih, é esse garanhão todo?
- Não. Já mandou duas para o hospício.



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- Viu que o Conselho Nacional de Trânsito vai multar pedestres e ciclistas?
- Quantas mortes eles provocam?
- Que eu saiba, nenhuma.
- Tá vendo, é sanha arrecadatória.



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- Vi no site de uma livraria religiosa a seguinte pergunta: você sabe quem foi Santo Ignácio de Antioquia?
- Sei.
- Quem foi?
- O que sabe onde fica a casa de Noca.



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- Empenha qualquer coisa pra beber.
- Até um guarda-chuva enferrujado?
- Se tiver, e o dono do bar aceitar...
- Então, já empenhou a vida.



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- Viu a passeata dos baleiros?
- Vi. É que eles não têm uma doce vida. 



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- Leu aquele poeta que falava das miudezas?
- Algumas coisinhas.
- E aí?
- Sempre achei a poesia dele miúda.



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- Não voto em ninguém mais...
- Pois, eu, continuo votando, enquanto tiver um candidato que Prestes.



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- A embaixada dos Estados Unidos em Havana está se queixando de ataques com som alto.
- Mande vim pra Salvador.

 

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- Hoje, eu vou ver meus filhos de rua.
- Oxé! E você tem filhos nas ruas?
- Um monte.
- Como assim?
- É só eu passar pelas calçadas que um diz "e aí, pai?"; outro, "me dá um real, pai"; mais um, "é ótica, pai? exame grátis" e o torcedor, "baêa vai brocar, pai". Tenho ou não muitos filhos nas ruas?



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 - Das quatro estações, qual a sua  preferida?
- A da Lapa.



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- Tão dizendo que o ovo que jogaram no prefeito de São Paulo foi atentado terrorista.
- Então, a Kombi do ovo é carro-bomba. 



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- Rapaz, você tá vendo a situação da Venezuela?
- Lá é Maduro. Aqui é Podre.



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- Cadê os paneleiros dos protestos contra Dilma?
- Foram para Portugal.



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- Você sabia que apenas 9% dos brasileiros aprovam o governo Temer?
- E cadê os 91% restantes que não o põem pra fora?



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- O que Diego Rivera achava de Frida?
- Quando estava com Trotsky, um calo. 


 
 
 
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- Você viu o deputado que devolveu uma mala de dinheiro, roubado, faltando R$ 35 mil?
- Foi o Imposto de Renda.


 
 
 
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- Vamos tomar a saideira no bar de Abs?
- E será que Abs tem cerveja?
- Abs tem!



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- Os Estados Unidos têm a mãe de todas as bombas. A Rússia diz ter o pai de todas as bombas. E nós?
- Nós somos os órfãos de todas as bombas.



 
 
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- Você viu o político que gosta de receber relógios, de graça?
- E daí? 
- Será que ele percebeu a hora de parar?



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- Amiga, vi sua foto no Instarã.
- Meu bem, é Instagram.
- Não me leve a mal, querida, mas é que você estava parecida com uma rãzinha....



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- Para onde vão carregam os celulares, como se fossem órgãos vitais, os ovários ou os culhões. Carregarão também para a sepultura?
- Não duvide. É a conexão on-line do além, a tumba high-tech? 



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 – Não gosto daquele russo? Ele é todo escorregadio.
– Que russo?

– Vassili.
– Vassili?
– É, Vassili Vasilina.
 
 
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– Aquele japonês é todo zen, tranquilão.
– Que japonês?
– Senzo?

– Senzo?
– É, Senzo Adda.
 
 
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– Nem o capitalismo, nem o comunismo servem ao homem.
– Por quê?
– No capitalismo prevalece o poder do dinheiro.
– E no comunismo?
– O dinheiro do poder.

 
 
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 – Já temos a campanha agressiva que você pediu para a sua empresa.
– Ótimo. Qual é?
– Não importa o que você leve. Queremos o seu dinheiro.

 
 
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– Até hoje não entendo esse negócio de Fator Previdenciário.
– É simples. Preste atenção.
– Tá bom.
– Com essa idade, você já fornicou muito, né mesmo?
– Fornicou?
– É, transou.
– Bote muito nisso.
-Então, tá na hora de se aposentar.
– Aposentar? Deus me livre! Ainda tenho muito o que trabalhar.
– Percebeu?
– O quê?
– O Fator Previdenciário.

 
 
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– Fui a Roma, e conheci o Papa.
– Eu também conheço o Papa.
– Você, que nunca saiu da Bahia, querida?
– Eu mesma.
-  Só se for o Papa Nicolau…

 
 
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– Conheço Cuzco, e você?
– Conheço cuscuz.