O café ao luar do maior dos medos

Samba-canção 


Quando os barulhos de 
Brotas estiverem vivos e 
indóceis, você dirá, o futuro 
tem dessas coisas, eu 
direi o mesmo, nós dois 
diremos, o que há pra viver 
depois de tudo, de todos os 
que foram nos deixando de 
um jeito ou de outro, sutis 
como os corpos sutis vistos 
a essa distância lá na calçada, 
lá no oriente uma evocação 
do oriente que é a banca 
de yakissoba na Avenida 
D. joão VI. Você talvez 
se lembre que toda manhã 
passa por nós, pelos nossos 
umbigos, e todo sol morre 
em nós ali pelas seis. O futuro 
já era, precisamos com toda
urgência possível de uma 
nova manhã de duas décadas 
atrás: quando não tínhamos 
dormido e nem fomos dormir, 
e acreditávamos que ninguém 
nos deixaria, nem nada.
O último poema de verdade um 
longo gemido há milhares de anos, 
era noite e todas as estrelas 
doíam nos olhos do último 
poeta de verdade.
 
 
 
 
A mulher do abismo 


A mulher do abismo vem 
até a borda infinita 
de onde se vê o perímetro 
urbano a perder de vista, 
silhuetas de bandeirantes, 
bandoleiros, criadores de 
mundos. O abismo a seus 
pés. Ela tem vertigem como 
todos têm, no entanto, é 
a fúria de não arredar 
que lhe confere a nitidez 
das grandes figuras 
projetadas no chão, tão 
longilíneas quanto alaranjadas, 
a mulher do abismo se 
veste de noiva e se casa 
com um fauno por volta 
das cinco da 
tarde.
 
 
 

Fatos reais

A última vez que sonhei com o 
mar não era necessariamente o 
mar, e olhe que era um sonho 
acordado. 

Sonhar acordado com o mar que 
nem é: isso não se explica no 
livro de Freud no de Pedro de 
Lara, ninguém que te ajude. 

A última vez que tive noticias de 
mim foi um filme que passou na
cabeça quando a morte era certa.
Uma vida baseada em fatos reais, 
era o que se lia no letreiro.
 
 
 
 
Um cão pisa macio
 
Um cão anda leve 
debaixo do sol. 

Não é que flutue, 
mas pisa macio, 

não é que não saiba, 
ele sabe da esquina, 

não é que se esquive, 
ele vai pela rua, ele 

parte pra cima, ele 
é todo caninos, não 

é que não corra, 
ele corre bandido, 

ele corre fugido, 
ele corre aturdido.

ele corre com a língua, 
e se lambe com a língua, 

e se lasca da língua 
pra dentro até o rabo. 

um cão anda leve, 
desanda e flutua.
 
 
 
 
O menino e o velho em sincronia
 
Às vezes o menino vira o rosto muito rápido, e o velho tem certa vertigem. Ou é o velho que pensa de um jeito complicado, e o menino tonteia. O velho 
guardou muita coisa, e isso confunde o menino 
que não guardou nada. Aí eles vão dormir e 
sonham juntos com as coisas que maravilham e 
apavoram os meninos e os velhos: um palhaço 
ruidoso, um gafanhoto num voo rasante, uma 
moça de pernas nuas que vem e que passa, um 
dia de sol e felicidade absoluta que não deveria 
ter passado, mas terá mesmo passado ou nunca 
passou, ou continua passando: nas reprises da 
sessão da tarde.
 
 
 
 
Buda my brother 

Buda my brother
bem que podíamos 
benzer 
os 
pés 
na 
água 
do 
mar 
no 
rio 
vermelho 
hoje 
ainda 
no 
mais 
tardar. 
Buda my brother 
é urgente
ir
andando 
pela 
calçada 
ao 
longo 
até 
logo 
mais 
na 
próxima 
encarnação, 

paciência.
 
 
 
 
O café ao luar do maior dos medos
 
Trago três medos em cada
bolso, e olha que trago muitos
bolsos, e trago cigarros, e
trago manhãs. Trago tardes,
muitas, moribundas,
trago milhares de tardes
moribundas, trago noites
enfim, madrugadas frias
que se parecem com a morte,
mas a morte na verdade é
quente, isso quem me
contou foi o maior dos
medos. Tenho mesa cativa
no café ao luar do maior
dos medos. Somos chapas,
pra nos entendermos basta
um simples olhar. E ainda
trago três medos em
cada bolso, e trago muitos
bolsos, e trago cigarros, e
trago manhãs e trago tardes.