A negociação na vida do super-herói

- Um minuto mamãe.


O xupelome inicia pela décima vez uma rodada de negociação, destinada a retardar o momento crucial de ir para a cama.

 

A negociadora, do outro lado do balcão, já dá mostra de impaciência ao romper a segunda hora de tratativas, embora lide diariamente com super-heróis, “os amigos”, nessa fase outonal do dia. Mal o sol se põe ela enfrenta o batman, super-man, homem aranha, hulk, capitão américa, homem de fogo, iron man, the flash, lanterna verde, leonardo, michelangelo, raphael e donatello, os quatro ninja, de acordo com o figurino do dia.


Hoje o capitão américa está um tanto bravo porque perdeu o escudo e a mulher maravilha, única heroína na casa e protetora universal, não pareceu muito disposta a ajudar. Inicialmente, até se prontificou, mas o super-herói não parecia amigável.


- Não, Luíja voxê vai pocular. Eu não vou.


- Então não vou mesmo, reage ela.


O super-herói sentiu-se vulnerável e usou um artifício comum nesses momentos.


- Eu vou bater com a espada, gritou ameaçador com os punhos cerrados, em posição de ataque.


A negociadora, que lia na mesa maior da sala, intervém.


- Sua irmã está desenhando. Vá você procurar o escudo. Não a ameace.


- Voxê é chata mamãe.


No relacionamento com a irmã, o Capitão América sabe o que diz e o que faz. Sabe que bater na mulher maravilha, três anos mais velha e bem mais alta e mais forte, quase sempre é uma batalha perdida. Se bater e ela não reagir, ela vai chorar e a negociadora entra em campo, para apaziguar e passar um carão. Se a mulher maravilha reagir, aí vai doer porque tem mão pesada e não dimensiona bem a força que tem. E o super-herói vai chorar muito. Ele então para, reflete e aproxima-se da mulher maravilha, carinhoso.


- Luíja eu ajudo a pocular. Voxê vem?


Quase sempre a mulher maravilha cede e acompanha o irmãozinho de dois anos e pouco abraçando-o carinhosa e protetora.


O escudo sumiu. Não está no quarto de brinquedos, na parte debaixo da casa. Não está no quarto do super-herói, que fica no andar de cima, nem no quarto da mulher maravilha, nem está na saleta de ver filmes com mamãe e papai. E o super-herói desata a chorar e a reclamar.


Passado algum tempo, e antes mesmo da negociadora aparecer para resolver a situação, a mulher maravilha tem a ideia salvadora.


- Você agora vai ser o super-homem, a sua camisa de capa está na cama.


- Tá bom.


A roupa de xupelome é a preferida por ele, a que mais gosta. É o seu herói mais querido. A camiseta branca, já encardida pelo uso, tem o “S” do personagem bem grande no peito. A capa vermelha, presa por velcro nos ombros, desce as costas até a cintura. Pronto está composto. Passa os dias com ela. E quando não está na escola, ele voa com a tal capa lá embaixo no playgroud, nas tardes calorentas de Saigon.


- Ah! Muito bom. O super-homem agora vai jantar. Vai ter o peixinho que você gosta.


- Um minuto mamãe.


- Só um minuto. Miss Ann Hoa já vai preparar o jantar.


- Tá bom.


Cinco minutos passados, Miss Ann põe a mesa.


Os dois sentam-se e pedem o tablet de cada um.


- Só um filminho; joguinho não pode, porque vocês não comem.


- Eu consigo mãe.


- Já discutimos isso Lulu. Você sabe que não pode comer enquanto brinca com o joguinho. Você usa as duas mãos no joguinho, só pode comer se parar e isso você não quer. Depois do jantar, tudo bem. Ok?


- Ok.


O super-homem até já sabe levar o garfo de plástico e a colher à boca. Mas a negociadora prefere ajudar e ela própria dar a comida. Hoje não está com paciência de limpar a bagunça de arroz, feijão, fragmentos de peixe, carne, ovo cosido do gosto do super-homem, ou de alface sobre a mesa, no chão, na roupa, na bochecha e no cabelo do xupelome, que não tira os olhos da telinha de nove polegadas.


Finda a operação jantar voltam à espaçosa sala, onde há brinquedos diversos espalhados pelo chão. Bonequinhos de inúmeros “amigos” super-heróis, tartarugas ninja com espadas e outros apetrechos de guerra, aviõezinhos, carrinhos, lápis de cor de cera, papel pautado e sem pauta, papel com desenhos apenas pontilhados para ser preenchidos e pintados. E, quando ninguém resolve fazer uma performance de dança moderna, ou correr atrás de alguém de espada em punho, ou ainda mostrar movimentos de kung-fu, os super-heróis quedam ao lado da negociadora a dar e a pedir carinho.


Agora já são quase sete da noite. E vai começar outra rodada de negociação, talvez a mais trabalhosa porque há pontos não negociáveis. O consenso dependerá sempre da habilidade ou da firmeza da negociadora.


- Faltam dez minutos para as sete horas. Hora de todo mundo tomar banho, depois subir para ver um filminho na tv e dormir.


A reação do xupelome é imediata:


- Um minuto mamãe, fala mostrando a mãozinha fechada com o indicador apontando para cima.


- Quem vai primeiro?


- Um minuto mamãe, um minuto, eu já dixe.


- Muito bem. A sua irmã vai primeiro e depois vou lhe dar banho.


A mulher maravilha já sabe quem leva a pior nessa negociação. Quase sempre tem de ceder. Já toma banho sozinha e, na falta de acordo, é escalada para ir ao chuveiro em primeiro lugar. Já não reclama, é uma mocinha e, na condição de líder, despojada e interessada nos assuntos do irmãozinho, levanta-se, arruma papéis, lápis e pincéis de tinta piloto, canetas hidrocor de todas as cores, leva-os à sala de brinquedos. Na volta, a caminho do banheiro, resolve ensaiar alguns passos de balé. Ainda não frequenta escola de dança e os movimentos mais parecem os do jogo de capoeira, que gosta de ver na tv. Herança materna de quem foi treinada por um mestre baiano.


- Lulu, vai tomar banho minha filha. Daqui a pouco seu irmão vai querer brincar também. Se vocês demorarem não vai ter filme. É direto para a cama.


A mulher maravilha reage um pouco, queixa-se, reclama, sempre eu tenho de ir primeiro, mas não resiste à pressão e vai. Ela já é negociadora experiente e sabe o momento e por que vale a pena.


A mãe e o xupelome estão mais descontraídos. A mulher maravilha volta cheirosa, cabelos longos e encaracolados, que encantam as mulheres vietnamitas incrédulas e a mãe a explicar, pela enésima vez na rua, que são naturais, e não usa produtos para modelar a ondulação. Mas como? Isso é possível? Eu não faço nada. Ela mesmo os lava e desembaraça. Não, não usa cremes, não usa gel modelador, não usa ativador de cachos. É difícil de acreditar e as curiosas saem, muitas vezes, achando que a mãe egoísta esquiva-se de ensinar o que diz ser fácil e simples e que para elas é o penteado mais difícil, quase impossível sem a participação de um especialista e suas tranqueiras cosméticas.


- Pronto, mamãe, já pode levar o Pedrinho.


- Luíja, voxê é chata, grita o xupelome, que fazia rasantes e parafusos, circulando pela sala com um aviãozinho da sua frota de super wings.


- Vamos filho.


- Só um minuto, mamãe.


- Pedro! Ralha a mãe, não tem mais um minuto... Vamos.


O super-herói começa a fazer malcriação e chorar a forte. Chorando é apanhado do chão e levado para o banheiro.
No instante seguinte, já na banheira, em um misto de cara safada, ainda chorosa, mas já esboçando um sorriso no canto da boca, o xupelome apela:


- Mamãe dá um beijo?


Quem há de negar. Faz-se a paz, sem prazo estabelecido. O super-herói sai do banho, agora é o batman que volta fagueiro, falante.


Na cena seguinte sobem todos a escada para o quarto de tv. O papai, jovem executivo de multinacional brasileira, está viajando, viaja muito, trabalha muito. Quando está em casa é recebido com festa na volta do trabalho, brinca depois do jantar e toma parte nas decisões. Quando não está, a negociadora, que acumula o trabalho profissional com a gestão da casa, chega ao fim do dia cansada, mas orgulhosa das pestinhas que gestou e pôs no mundo, personalidades fortes, obedientes, teimosia só durante as negociações, que começam no fim de tarde e vão até a hora de dormir, lindas, meigas, carinhosas.


Escolher a fita que vão ver antes de dormir gera pouca disputa. O super-herói quase sempre rende-se aos desejos da irmã. E fica combinado que o cinema não passa de meia hora. Às oito da noite estarão na cama. É um combinado não combinado pois jamais acaba bem, e a negociadora está preparada para o desfecho.


- Pronto, desligar a tv, escovar os dentes e cama.


A voz da negociadora é firme, mas nem ela acredita nela, sabe que será difícil.


- Mãe, mais três minutos. Deixa só terminar essa parte do ballet...


- Um minuto mamãe, reforça o xupelome com o dedinho apontando o teto...


Vai começar uma nova e séria rodada de negociação, a mais dura do dia.