Babilônia, Amigo Morto, Língua Humana

BABILÔNIA
 
 
Ontem não vi você em Babilônia
Num fragmento de argila, em escrita cuneiforme,
cerca de 3.000 anos a.C.
 
Ao saber da notícia, revivi
aquela noite funda em que escrevi
(afogava-me um pântano de insônia):
 
Ontem não vi você em Babilônia.
 
Só o que restou de tudo: um fragmento
de tabuinha que escapou do vento
do Tempo. Sob o pó, pulsando, a insônia:
 
Ontem não vi você em Babilônia.
 
Foi a última vez que lhe escrevi
e nenhuma resposta recebi.
Ainda respiro o que chorei na insônia:
 
Ontem não vi você em Babilônia.
 
Os arqueólogos me decifraram
e, milênios além, se emocionaram,
por ser só amor e dor a voz da insônia:
 
Ontem não vi você em Babilônia.
 
Era o bastante. O Tempo na tabuinha
quase tudo apagou da história minha,
porém deixou o essencial da insônia:
 
Ontem não vi você em Babilônia.
 
E assim contam-se vida e seus escombros
que um dia se partiram nos meus ombros.
E na alma, desde então, só noite e insônia:
 
Ontem não vi você em Babilônia.
 
 

 
 
 
SONETO DO AMIGO MORTO
 
                               a Mário Vieira da Silva,
                                          in memoriam.
 
 
Abre o vinho e nos serve, o amigo morto,
e brindamos com doce alma de Porto.
Rico de vinhos, sempre, o amigo morto:
da Argentina, do Chile, França e Porto.
 
Tão jovem que ele está!... Bebo do Porto,
fitando com ternura o amigo morto.
Corado, alegre, o claro amigo morto
presta homenagens às marés do Porto.
 
Um cálice, e outro, e outro... O amigo morto
segue em viagem aos portos que há no Porto.
Tão bem vai navegando, o amigo morto,
 
que sorrio, admirando-o porto a porto,
perguntando-me, à luz da alma do Porto,
se acaso não sou eu o amigo morto...
 
 
 

 
 
A LÍNGUA HUMANA    
 
 
E então não entendias o que eu falava.
Nem me entendia eu, pois me travava
 
a língua. O que eu dizia: amor, amar,
soava de súbito como um rosnar,
 
depois um ronco, depois um ganido,
e eu me perdia em mim. E mais perdido
 
fiquei ainda quando me falaste
numa linguagem sem flor e sem haste,
 
tão áspera, pesada, desairosa,
rude, sombria, gélida, impiedosa.
 
E nos calamos. Um medo titânico
nos envolveu. E eis que um clamor de pânico
 
de súbito se ergueu de tudo em torno,
e só havia ruído, horror, transtorno
 
em cada voz tecida de inclementes
pronúncias que estrugiam por entre os dentes
 
e nada explicitavam que alguém
pudesse compreender. Nem mal ninguém
 
sabia o que era dito – se era dito,
pois tudo misterioso ao infinito.
 
Fitei-te em grande espanto – e tu me olhavas,
no mesmo duro espanto me fitavas.
 
Quis retomar o meu falar de amor
e me afastaste em gesto de pavor,
 
enquanto dos teus lábios cor-de-rosa
jorrava a catarata pedregosa.
 
Já nada se entendia em parte alguma
e as pessoas fugiam, uma a uma,
 
depois em bando... Logo percebi
que também não estavas mais ali.
 
Doido, em delírio, fui a te buscar,
mas parecias ter sumido no ar...
 
E eis que outra coisa ouvi: a gargalhada
que descia dos céus e a trovoada
 
- como enchente de um Nilo ou de um Ganges –
de arcanjos eriçados de alfanjes.
 
Fugi, fugi, transido de pavor,
implorando a piedade do Senhor.
 
No deserto, sonhando água e mel,
só encontrei areia, sol e fel.
 
Ao Senhor, sim, prossigo em mim fiel,
mas não retornarei nunca a Babel.