GOROBA

Não conseguiria esquecer o Goroba mesmo que faltasse ao seu enterro. Estava ele ali, deitado sob uma tonelada de crisântemos amarelos, com seu ar matreiro. Era perceptível o sorriso no canto da boca, como a se vingar na dor dos presentes pelo câncer de estômago que o matara tão rápido. Foi a primeira vez que o vi de paletó. Comprado às pressas, o terno de tergal cinza até que lhe caía bem. Já não tinha mais o barrigão, que a doença se encarregara de murchar.

Era sacana por excelência. Gostava de ser assim. Até na hora da morte. O velório, um vexame geral. Não perderia a última oportunidade de chocar os circunstantes. Os amigos do peito, todos bêbados, longe da capela, faziam uma zorra no cemitério. Esquivaram-se até de levar o caixão. Dois ou três ímpios, olhos injetados, bafo de tigre, andar cambaleante, gravatas frouxas, camisas abertas ao peito, barba de dois dias, aproximaram-se naquela manhã de quarta feira de agosto, mas nenhum se ofereceu para segurar a alça.

Os parentes mais próximos, apalermados, observavam a malta com desdém.

“Ah! Esse Goroba” suspirava Dalva, a mais velha das três irmãs que ajudou a criar o sub-caçula da família, que só perdeu em diabruras na infância para o primogênito, agora um homem sério.  

Ainda bem que a corriola de ex-mulheres e raparigas não encostou para os abraços e beijos de pêsames à família, postada em torno do caixão, em uma linha de defesa intransponível.

A esbórnia foi mantida, estrategicamente, à distância. Afinal, a paciência de Mariazinha, a severa matriarca do clã, tinha limites. Certamente ela não entenderia a mistura dos sons tristes do memento com a musiquinha do samba, ouvida ao longe “... quando morrer não quero choro nem nada, quero um bom violão tocado pela putada”...

Acabado o enterro, retirados os familiares, todos foram embora. Menos o ruidoso grupo entrincheirado entre os oitizeiros.

“Que diabos eles ainda querem?”, comentavam entre si os guardas que, discretamente, haviam feito um cerco. Logo descobriram a razão: havia ainda algumas garrafas de uísque barato a esvaziar.

Quanto ao defunto... bem, era capaz de o Goroba, estar planando ali por perto, a gargalhar, como sempre fazia nessas ocasiões, com o tamanho do pepino nas mãos da segurança do cemitério. Afinal nem todo o efetivo da guarda expulsaria aquele exército embriagado, impunemente. Ia ser o maior mangue.
 
Lembro-me bem do Goroba ainda menino em Alagoinhas. Mentiroso, sem igual. Jamais errou uma badogada, o passarinho saía voando lépido e fagueiro, mas jurava que havia quebrado-lhe os cambitos das pernas com a bala que passara raspando. Na casa dos 10 anos começou a aprontar, era, aliás, o início de uma longa carreira, que só terminaria mais de 30 anos depois. Entrava no velho Cine Azi sem pagar e quando Pacífico Surdo, o porteiro, ia reclamar ameaçava chamar o irmão mais velho, vereador. Pacífico ria amarelo com o topete do moleque, mas, por vias das dúvidas, não ousaria comprar briga com a autoridade.

Quando completou 14 anos, a família mudou-se para a capital da Bahia. O Goroba bateu pé e conseguiu ficar, morando sozinho, no casarão de mais de 20 cômodos. Já se considerava auto-suficiente, não perderia por nada aquela oportunidade de livrar-se do jugo familiar. Desapossou Mariazinha e passou a reinar na casa. Controlava o extenso corredor, pintado de verde abacate com piso de lajota vermelha rústica, que saía da porta da rua e terminava na cozinha, ladeando a sala de visitas, uma sala menor para conversas reservadas, o quarto da mãe, o quarto das três meninas, o quarto dos dois irmãos mais velhos e o quarto dele junto com o irmão caçula, para finalmente chegar à sala de jantar de onde se passava à cozinha. Esta era a parte principal da casa, que incluía ainda o instrumento de tortura de Mariazinha. No pátio de cimento varrido, contíguo à sala de jantar, havia um grande tanque de coletar água da chuva, que abastecia a casa e era objeto de castigo. Os meninos que ficassem até depois das dez da noite na rua, ao chegar, tinham que fazer a terrível escolha: uma surra com a “chiquinha”, um relho de couro de cabra que maltratava e deixava marcas no lombo, ou um banho de coité. A opção era sempre pelo banho de água gelada que maltratava tanto quanto a chibata, mas não deixava marcas.

Sem pleitear, mas insistindo que carecia terminar o curso de protético que fazia na condição de auxiliar no consultório de Ivo dentista, “era só mais uns dois meses”, o Goroba, aos 14 anos de idade, ganhou alforria e a casa só para si. Sem punição de banho gelado e muito menos surra de chicote, ganhara o direito constitucional de ir e vir sem ter de prestar dar contas a ninguém.

Já contabilizava, então, algumas façanhas consideráveis no currículo. Exímio atirador no vôo, era o principal convidado para as caçadas de um grupo de adultos, empresários e profissionais liberais da cidade. Gente de bem, cidadãos de conduta ilibada, liderados por Nezito Joalheiro e Paulo Jibóia, dono do armarinho O Dragão.

Caçar era o mote da escapadela, em realidade orgias fenomenais longe de olhos bisbilhoteiros, no meio do mato, à beira do Rio Itapicuru. Sem dinheiro, Goroba entrava apenas com o talento - a pontaria e a fama de não perder tiro em perdiz e codorna no arroto. Os demais compareciam com o transporte, armas, munição, a intendência (especialmente muita bebida) e mulheres.

O moleque boquirroto era sempre o melhor atirador. Garantia o salvo conduto de todos no retorno ao lar, troféus arrepelados, tratados e moqueados, a justificar a ausência de quatro dias e carimbar o passaporte para a farra seguinte. Quando o estoque de aves abatidas premiava a cada um com razoável quinhão, iniciava-se a segunda etapa da empreitada: um dos carros dirigia-se ao puteiro das cercanias para desincumbir-se da tarefa mais esperada.

- Chegou o material, grita Zelitão, apontando para o jipe Willys apinhado de mulher, excitadas com a oportunidade rara de faturar algum e ainda por cima comer e beber do bom e do melhor. Ao volante, Jorge Bacardi, o único solteiro do grupo, era só felicidade, com a mão esquerda no volante e a direita acariciando os peitos da galeguinha, a melhor entre elas, que ele não era besta e escolhia logo na hora de fazer a seleção.

Contentamento geral, gargalhadas, desfile de seios e bundas, garrafas de mão em mão. Esta era a pior parte na viagem do Goroba. Ainda menino, pouco tamanho, não adiantava protestar, exibir a penugem pubiana e jurar pela alma da mãe que já tinha gala. Xingava, esperneava, ameaçava não mais voltar a caçar com aqueles putos. Nada, ninguém dava muita bola. Nunca entrava na dança no primeiro turno. No máximo, batia soro. Isso na carreira, quando a mulher ficava compadecida do menino bonitinho.

- Vem cá meu bem. Avexa que o carro tá saindo. Eles têm preferência, tão pagando, mas gostoso mesmo é tu, dizia a cristã que se compadecia dele tentando acabar a zanga, acariciando os cabelos, o peito imberbe. Pelos eriçados, todo agitado, o Goroba nada ouvia... nem esperava ajuda para desabotoar a braguilha...

Mais do que a iniciação sexual, recolhia nessas caçadas matéria prima para as histórias que contava em imensas rodas de amigos, curiosos, ávidos por conhecer detalhes íntimos da anatomia feminina...

Bicos de peitos, cabelo duro que não acabava mais naquele lugar, alí em cima do xibiu ... solene como um juiz prolatando sentença, mantinha nas nuvens a fértil imaginação da meninada.

Seis meses depois de mudar para Salvador, a família já não acreditava no término do treinamento de protético. Sozinho naquela casa enorme de adobe e reboco, o Goroba ocupava os cômodos com seu material de caça, comia e vestia com a mesada que Mariazinha mandava e plantava coentro e hortelã miúdo no quintal, cheio de bananeiras, araçazeiros, mamoeiros, sapotizeiros e um grande pé de fruta-pão. Era o seu império. Controlava com postura de senhor de engenho as empregadinhas domésticas da vizinhança. Comia quase todas, tempos de incessante vai e vem, entre o escurecer e as nove da noite, horário limite rigorosamente observado. O que ele menos queria era problema com os patrões delas, até para não perder as prendas que levavam em pedaços de bolo, cuscuz de tapioca, carimã, pão doce e frutas.   Aos 16 anos, Goroba já se considerava expert em putaria, frequentava o mangue, prendia e soltava gente. Uma noite fria de São João teve que libertar um grupo de adolescentes, liderado por Léo, irmão duas casas acima entre os sete. Na noite de véspera do dia santo cumpria-se a tradição percorrer as ruas embriagando-se de casa em casa com um licor amigo de jenipapo, tangerina, pitanga ou maracujá, comendo bolo de aipim e canjica de milho verde, requeijão, cana e batata doce assadas na fogueira. Léo e sua turma foram flagrados por um soldado meio de porre, e só por isso severo no cumprimento da lei, porque sóbrio não incomodava ninguém, ao preparar  as armas para uma batalha de espadas, outra tradição, só que proibida no município. Enquanto a tropa inimiga se escafedia, terminaram presos portando os canudos de bambu socados com pólvora e limalha de ferro, vedados nas extremidades com argila.

Sabedor do ocorrido, o Goroba aparece sorridente na delegacia.

- Esses jovens não têm juízo, falou alto ao delegado, para que os demais, esperando no canto da sala do escrivão a vez de serem interrogados (apenas um era mais novo que ele) ouvissem e se dessem conta do esforço que faria para livrá-los do xilindró. Pediu ao delegado um particular no canto oposto e, ninguém sabe o que falou ao companheiro de caçadas, o fato é que o sisudo policial relutou, mas acedeu. Antes, porém, admoestou.

- Só vou liberar porque o senhor Salvador me merece toda consideração, quero todo mundo indo direto para casa. Se encontrar alguém na rua, a essa hora da noite, vou prender e aí ninguém mais solta, concluiu ameaçador.

Momento seguinte.

Na Boa Vista, a rua do brega, próxima à delegacia, o grupo ainda assustado era submetido a outra conferência.

- Só vou livrar a cara do meu irmão, bradava o Goroba, o resto aí tem que entrar com dezinho aqui na minha mão. Ouviram a autoridade, é bom começar a se coçar, querem ser processados?

Garantido o numerário para a farra, o barão Salvador (nome de batismo que “seu” Lalinho deu ao primeiro dos sete filhos a nascer na capital) engatilhava sua entrada triunfal naquele antro de perdição, no qual se aninhava até o dinheiro acabar. Antes passava no botequim de Sandoval, cabeça de ponte do puteiro. No balcão ele dava as coordenadas, acertava cachê...

- Ô careca, sai um bacardi com coca-cola...

- Desinfeta moleque, quer me comprometer? Cuba libre aqui só maior de 21 anos. Cê sabe que não vendo, pede bebida só pro comissário Eliezer saber e me foder. Cê sabe que ele é escroto. Ninguém vai fechar meu estabelecimento. Não gosto dessas brincadeiras...

- Quer ver o tamanho da idade?... fingia  que ia baixar as calças.

- Me respeite, seu corninho, quer levar porrada? O sopapo que dou em um homem, dou em você...

- Tá bom, tá bom, apaziguava. Então me dá só a coca-cola, mas da melhor que tiver...

Passada a ira do velho Sandoval, que durante o dia até facilitava, os dois riam, o Goroba perguntava se Gal, a cearense sua paixão, estava com homem, bebia, pagava e embicava rua abaixo, para o número 21.

Somente aos 20 anos, o protético de talento, artesão de mão cheia no seu ofício, resolve ir estudar e morar em Salvador. Logo ficou conhecido na praça, ganhou muito dinheiro e torrou tudo, montou uma clínica, montou apartamento no Porto da Barra, de frente para o mar, no qual, a bem dizer, não morava, hospedava-se.

Trabalhava dez, quinze dias, faturava, deixava a clínica com o pessoal de apoio e caía no mato. Viajava para o interior, mais precisamente ao sertão da região do sisal, para caçar, encher a cara de cachaça e vadiar com as putas. Sumia por uma semana, duas...

Quando estava na capital, o doutor Salvador tinha sempre a casa cheia, era festa permanente. Nos fins de semana abarrotava a dispensa de carne para churrasco e bebidas. Os amigos iam chegando na sexta-feira pela manhã. As mulheres preparavam a carne, cozinhavam arroz, faziam saladas à vinagrete. No início da noite, o Goroba chegava e assumia o comando da cozinha. Invariavelmente saía pela madrugada, acompanhado, e só voltava no domingo à noite, ou segunda cedo. A casa ficava cheia de gente. Era comum, alguns convidados se auto-escalarem para ficar uma temporada. Pessoas às vezes desconhecidas, levadas por amigos.

- Você quem é, está procurando alguém?

- Não, eu sou o Goroba.

- Ah, sei. Mas está procurando alguém?

- Não, porra, eu sou o dono da casa e você, quem é?

- Eu sou Toninho, amigo de Délio.

- Vai ficar muito tempo?

- Sei lá, ainda tou na maior viagem.

- Tá bom, pode ficar até passar a carraspana. Depois, pega sua namorada e leva também.
Diálogos desse tipo não eram novidade, afinal umas l5 pessoas tinham as chaves do apartamento.

O barão Salvador tomou um banho e saiu para o trabalho, deixando duas mulheres dormindo na sua cama. Não as reconheceu, mas mulher tudo bem. À noite saberia quem eram. Não se lembrava do número das que chegavam para o churrasco e terminavam ficando a semana inteira. Parecia não se importar muito com a qualidade da parceira de cama. Ele as achava, todas, melhor que Marta Rocha, a mais bela das baianas.

Certa noite, caminhava com Eduardo, o irmão caçula, saindo do largo do Campo Grande na direção do Farol da Barra, iam papar duas loirinhas lindas e ricas moradoras de um palacete ao lado do Hospital Espanhol. Eduardo que não se agastasse com a longa caminhada porque valeria a pena, nunca mais na vida ele teria possibilidade de comer belezas iguais. Ao descerem a ladeira, saindo do Corredor da Vitória, a loirinhas já não eram tão loirinhas assim.

- Como?

- É elas são lindas, mas acho que pintam os cabelos.

Continuaram caminhando e à medida que se aproximavam do Farol as mulheres iam perdendo atributos, perdendo status. Deixaram de ser ricas, foram empobrecendo, ficando apenas bonitas, até que a 50 metros da mansão, prestes a levar uns catiripapos, confessou: “São as graxeiras da casa, mas são as melhores da Barra”.

Tempos depois, com quase 30 anos, mudou-se para Valente, no sertão da região sisaleira, onde passava boa parte do tempo no mato a caçar perdiz, sua atividade preferida depois do exercício da fornicação. Vendeu a clínica de Salvador, manteve um gabinete dentário que implantou na nova cidade. Não eram, no entanto, só as caçadas e as mulheres. O Goroba alimentava um sonho quase secreto, só conhecido pelos mais íntimos. Havia planejado outra vez ter um filho, depois de várias tentativas desgastantes, que lhe valeram dissabores e brigas. Pelo menos duas ex-namoradas fingiram a gravidez. Ele ficava todo feliz, comprava enxoval de criança, preparava o quarto, o berço. Uma delas levou porrada.

Pela enésima vez, arranjara uma namorada, esta considerada por ele a mulher ideal, era prendada, cozinhava bem, muito trabalhadeira e não enchia o saco. Foi o relacionamento que mais durou. Exatos 48 dias. Cansado da monotonia da vida doméstica, o Goroba fez à cara metade a proposta terminal: só continuaria morando junto se ela permitisse que, de vez em quando, ele levasse alguma namoradinha para casa. A moça, ofendida e humilhada, foi embora.

- Ela era muito ciumenta e ainda queria mandar em mim.
Mentiu para os amigos e parentes aos quais havia apresentado Suzana antes de viverem juntos. Este fora o único casamento que Mariazinha aprovara e agradecera a Deus por, finalmente, o filho ter tomado vergonha na cara.

Tudo bem. O Goroba velho de guerra voltou aos costumes. Trabalhar. Logo, logo era o melhor dentista da região, fazia milagres nas bocas cariadas e desdentadas daquele povo. Cobrava de quase ninguém. A maioria, gente pobre, pagava com uma galinha, uma banda de carneiro, um leitãozinho. Os considerados ricos tinham a sua malquerência. Porreteiros, dizia. Continuava atendendo-os, mas poucos pagavam o combinado. A elite sertaneja consumia as novidades levadas da capital pelo dentista, em vez de amálgama, porcelana bonita e cara. Cirurgias a laser, obturações sem motor e dor. Só não gostava de pagar. Muitas vezes o paciente dava uma pequena entrada e sumia com a prótese provisória.

Nas horas vagas e eram muitas, caçava ou rodava os cabarés da vizinhança. Conhecia cada mulher dama da região. Nas mesas de bar, sempre rodeado de amigos e mulheres, não perdia a chance de exercer a sua militância anarquista, espinafrando Deus e o mundo que tivesse mandato, poder, toga ou dinheiro. Irriquieto, não arrefeceu nunca o seu lado empreendedor. Só fez besteira. Sem ouvir opiniões, construiu um hotel, com restaurante e tudo, que funcionou muito pouco tempo. Uma época, cansado de circular de carro por aquelas estradas poeirentas, construiu um puteiro particular, o “Buraco da Vovó”. Mais um prejuízo. Por duas vezes as putas de sua total confiança fugiram levando em um caminhão geladeiras, freezers, aparelhos de som e móveis. O “Buraco da vovó” ficava em um sítio, fora da cidade, longe dos olhos do dono.

- Prejuízo porra nenhuma. Não achei foi apoio, nem da família. Família, aliás, só serve mesmo pra atrapalhar, por isso sempre morei sozinho. Vocês acham que eu sou idiota? Vê se eu vou deixar parente manobrar a minha vida. A única pessoa que considero mesmo é minha mãe. Ela sim é foda. Veio da roça, montava cavalo, atirava bem herdei dela minha pontaria, teve fábrica de vinagre e de sabão. Tudo isso sozinha, sem ajuda. Ficou viúva com sete filhos pequenos antes dos 30 anos e criou todo mundo. Fiquei inimigo dela umas duas vezes, mas isso não vem ao caso, gosto dela.

- Agora, você tá aí falando besteira. Que revoltado, que anarquista porra nenhuma. Vocês nunca tiveram foi o culhão que eu tenho, isso sim. Eu caí na vida, senhor de mim mesmo. E mulher  quase tudo é interesseira. Quem gosta de homem é veado, mulher só enxerga o dinheiro do besta. Acho que mulher séria só tem puta. Se encontra um homem que a dê valor vira honesta e trabalhadeira.

- Não fosse esse caralho de câncer, eu ia mostrar a vocês se o hotel daria certo ou não. Já estava negociando com a prefeitura fornecer comida nas frentes de trabalho e acomodar os músicos das bandas que tocam nas festas de Valente. O ruim é que, durante anos, tratei aquela dor de estômago com cachaça de guiné. Esta foi a única besteira que fiz e não adianta dizerem também que o câncer só encontrou moleza por causa daquela picada de cascavel, no ano passado. Ela me pegou no pé, que é bem longe do estômago...

- Espera aí parceiro que o pau tá comendo no cemitério. Foram expulsar o povo e a madeira cantou. Chamaram a polícia, daqui a pouco os home chegam. Tá o maior mangue, ah,ah, ah. Ainda bem que já fui enterrado, se não podia sobrar pra mim...

O rebuliço familiar do post mortem
  
O post mortem do Goroba causou o maior rebuliço na família. O irmão mais velho decidiu que logo depois do enterro viajaria a Valente para, no dia seguinte, cedo, iniciar o inventário informal dos bens do defunto e avaliar o problema que teria com as mulheres que apareceriam reclamando herança. Era agosto e ele estavam trabalhando em campanhas políticas de três candidatos a prefeito, todos em localidades do sertão do norte da Bahia, decisão que tomara quando percebeu a gravidade da situação de saúde do Goroba. Desta vez não iria trabalhar em outros estados, o que fazia costumeiramente por conta das implicações políticas pessoais com os detentores do poder local.
 
- Gente vou viajar à noite, já contratei motorista, não há perigo...

- Não, a gente vai também, ninguém vai deixar você fazer isso sozinho.

- Mas não tem problema, é caminho para Paulo Afonso, de Valente o motorista volta de ônibus e eu sigo viagem. Vocês podem ir depois...

A disposição solidária dos irmãos Léo e Dinho, em realidade, escondia uma grave preocupação. Dalva, com a autoridade de irmã mais velha, se escalou para a viagem e os dois precisavam  neutralizar a possibilidade de uma hecatombe familiar, com severo preço a pagar às próprias mulheres e à Mariazinha, a rigorosa chefe do clã.
 
- Viu, cambada de sacana, comeram a carne agora vão ter que engolir o osso.  Agora se virem, comentou consigo mesmo o Goroba lá do alto de onde tudo observava.

O Goroba sabia o que dizia. Durante anos, os dois irmãos, no início ainda solteiros, mas por amarem a putaria continuaram mesmo  já tendo casado, participaram de bacanais no Hotel Oxalá. O hotel mantinha o princípio administrativo do apartamento do porto da Barra. Uma vez por mês, o Goroba mandava matar um boi e enchia os três freezers de carne, além de outros dois de bebida no bar do hotel. Ninguém queria mais nada na vida, era comer, beber e trepar as mulheres que o próprio anfitrião convocava. Tudo sorete. A mais de 200 quilômetros de Salvador, no sertão do sisal, ninguém saberia de nada.

O que ninguém sabia, à exceção das raparigas, narcisistas, é que o Goroba filmava a porra toda. E assim formou um respeitável acervo de filmes de sacanagem, que pode ser considerado precursor dos filmes pornográficos hoje tão comuns. Um belo dia, o Goroba contou aos irmãos, o que os amigos já sabiam. Os dois pediram para assistir os filmes, no que foram atendidos, mas nenhuma fita saía do hotel. Homem íntegro e respeitador de compromissos, o Goroba não permitiu que nenhuma imagem ultrapassasse as paredes o Oxalá.
 
Mas, quem ia adivinhar que o Goroba ia morrer? Ainda mais tão jovem e de forma tão repentina? O câncer deu-lhe apenas dois meses de vida.
 
Para vencer a resistência do primogênito, Léo chamou-lhe a um canto e confessou tudo. Dalva não podia nem sonhar com uma coisa daquelas. Moralista, botaria o caso no mato. Os dois não podiam nem pensar em tal infortúnio.
 
Chegaram ao hotel, em Valente, depois da meia noite. Já com as chaves nas mãos, Léo e Eduardo desceram alvoroçados do carro e se adiantaram para entrar, enquanto o irmão mais velho convencia Dalva a saírem rapidamente a procurar algum lugar onde pudessem comprar mantimentos para matar a fome imediata e servissem para o café da manhã. A cidade estava deserta, mas haveriam de encontrar algum lugar aberto. Não encontraram, mas pelos 15 minutos se passaram e resolveram voltar ao hotel. No mais alto dos quatro pavimentos do prédio o Goroba montou espaçoso apartamento, que tinha por ambiente principal uma sala de quase 60 metros quadrados. Alí era o espaço de ostentação do dono da casa. No lado do poente estava a cozinha com fogão industrial, alimentado por sistema criado por ele próprio, em que os grande botijões ficavam ao rés do chão em um pátio externo e o gás era levado por tubulações fixadas por grampos à parede . Dois grandes armários abertos guardavam jogos de panelas, talheres, caldeirões, pratos. Na parte em frente dois freezers, quase sempre abarrotados de carnes de boi, galinha e das caças do Goroba, em especial mocó, paca, perdiz e codorna. Aliás, foi no encalço de um mocó nos morros de pedra na fazenda de um amigo em São Domingos, ali ao lado, que terminou picado por uma cascavel , incidente ocorrido um ano antes de morrer, ao qual os amigos atribuíram a fragilização física que facilitou o trabalho do câncer. Pouco mais à frente uma cristaleira, na qual eram guardados copos e taças, além da bebida, que mantinha sempre trancada. Ao lado da cristaleira um balcão branco fechando o ambiente, de três metros de comprimento por um e meio de largura, feito em alvenaria com tampo de mármore.
No ambiente contíguo, dois grandes sofás, cadeiras, almofadões, os aparelhos de som e um pouco mais adiante, em um canto, mesa e cadeiras, no que parecia ser um escritório. Uma suíte e mais dois quartos servidos por um banheiro conformavam os aposentos do barão Salvador.
 
- Os meninos não estão aqui.

- Estão sim, vai ver foram ao banheiro, desconversou o irmão mais velho.

Com ar de cansaço e ofegante por subir quatro vãos de escada, ela entrou na sala e, com sede e fome, dirigiu-se à cozinha. Mal sabia que estava no cenário máster dos filmes de putaria do Goroba. Ali onde pisava pesarosa e rezando pela alma do indigitado, farrearam muito homem e mulher pelados e embriagados.

- Não falei? Estão no quarto dele.

Em realidade, o “quarto dele” era o bunker da casa. Tinha 20 metros quadrados, uma confortável cama de casal, armários com roupas, dinheiro e objetos de valor, filmadoras, monitores de TV. Em um canto, um armário especial de metal guardando quatro espingardas de calibres 20 a 36. No canto oposto, meio escondido pela cama, um grande e velho baú de madeira e couro, este sim o objeto da apreensão de Leo e Eduardo. Nele estavam entocados os filmes do Goroba.

Ao chegar, os dois subiram correndo as escadas e foram direto aos aposentos, sequer acenderam a luz na sala. O baú não deu muito trabalho para ser arrombado.
 
- Puta que pariu, não tem título, não tem título. O que a gente vai fazer?

Eduardo, o caçula, olhava desolado para o irmão ante dezenas de fitas de vídeo não identificadas, praticamente todas sem títulos. Esta era uma mostra da retidão de caráter do Goroba em se tratando de sacanagem. Ele próprio encontrava fácil a fita que queria ver ou mostrar a alguém por um mecanismo muito simples: a cor do selo colado na embalagem, vindo de fábrica ou etiquetado por ele. Não era simples descobrir isso pois as deixava misturadas, e assim procurava garantir a promessa feita aos amigos e a algumas mulheres de que ninguém seria exposto.
 
- A saída juntar tudo e jogar no mato. Dalva nem vai saber desses vídeos, matutava Leo em voz alta.
 
Ledo engano, a irmã mais velha não só sabia do acervo audiovisual do Goroba como também queria pesquisá-lo para encontrar algumas gravações feitas em duas raras ocasiões naqueles anos todos em que família inteira reuniu-se no Hotel Oxalá, com a presença inclusive da matriarca a quem Dalva queria presentear com a exibição delas.
 
- O que é que vocês estão futucando aí? 

Dalva adentrou sorridente ao santuário do Goroba, enquanto a terra desaparecia sob os pés dos irmãos mais novos. Lívidos, não conseguiram construir uma resposta plausível. A tensão aumentou com a informação de que ela também queria ver o material. Em um instante sobrevieram imagens da desagregação familiar, brigas pelos filhos, divisão de bens, a decepção e a punição, que seria severa, de Mariazinha aos dois traidores do lar, pecado mortal, que matriarca nenhuma toleraria. Olhavam-se os dois telepaticamente antevendo a hecatombe, quando chegou a salvação momentânea na interferência do mais velho que, argutamente, empurrou o problema com a barriga.
 
- Dalva não tem equipamento, nem tempo. Quando voltarmos para Salvador vocês dois se encarregam de encontrar os filmes da família e vêem se há mais alguma coisa interessante. O Goroba adorava gravar as caçadas e o produto delas para se exibir com os amigos. Vamos dormir que amanhã tem muita coisa para ser resolvida, especialmente com a herança das viúvas do Goroba.

A sugestão foi aceita de pronto, mas também, de imediato, Leo começou a traçar um plano de esconder o explosivo material libidinoso à sete chaves quando chegassem de volta à capital.
 
- Nada disso, amanhã cedo eu quero ver essas fitas. Conheço vocês, quem foi que lhe criou Eduardo? São preguiçosos, vão demorar um ano para fazer isso. Aliás, vou levá-las para o quarto porque já faço uma seleção, quando vocês acordarem estará tudo pronto.
 
- Mas Dalva, as fitas não têm título...
 
- Tem nada não, vou levar tudo...