ESPELHO DE AURORAS ROTAS

I
À beira desta cama de hospital,
Sem mais remédio, o soro desligado,
aparelhos, enfim, quietos, mudos,
minutos passam, penso no destino
único que se estende à minha frente.
Mantenho os olhos presos no vazio.
Que me segredam esse quarto lúgubre,
a cor dessas higiênicas paredes,
o piso igual de um branco corrosivo?
Tenso, recordo telhas, roídos caibros,
soalhos, janelas, portas e batentes,
que antes se abriam para campos, frescas
várzeas, e agora hospedam labirintos,
corredores de bruxuleantes círios.
 
II
Cá estou, não quero mergulhar em trevas,
desgosta-me pensar que estou no fim.
Cativo deste catre irrevogável,
a todos vou dizendo que, entre assombros,
busco na brisa  sons que me trarão
indícios em formato de mensagem,
que me consintam céus menos irados;
de auroras límpidas, logo manhãs,
sonoros meios-dias, tardes cálidas,
crepúsculos de cores concentradas.
Penso nos antes vastos campos que, jovem,
cruzava, de mãos dadas com venturas,
luz de pétalas suaves entre sombras,
a deslizar sobre o espelho de um rio.
 
III
Agora, livre desta enfermaria,
se todos querem longe as minhas dores,
felicidade não nos vem com medos.
Entre cuidados e semblantes graves,
esqueço lutos, mágoas e lamentos
e aguardo quem me guarda e em quem confio.
Ela me levará com mãos de fada.
Supunha que na maca estava morto,
quando, súbito, do infinito azul,
como vindo na ponta de uma fecha,
bate em meu coração memória úbere,
que me aponta o caminho, e logo emerjo
de uma areia de mínimos cristais,
que são os dias que fui ainda sou.
 
IV
Quebro o espelho, mas se mantém a imagem.
Livro-me de histerias e queixumes,
levanto os olhos para o teto, penso.
Vejo colinas, bosques, águas, flores,
um terreiro longínquo, uma pastagem,
verdes que precipitam cacauais.
Vem anunciando chuva benfazeja
um vento forte e novo, bem diverso
do que desce a serra quando calmo,
este que agora as telhas injuria,
atravessa ruidoso as quatro portas
do armazém de secos e molhados
e me escancara em tarde pressurosa
roto espelho de auroras sossegadas.