BRASILINO, O REVOLUCIONÁRIO

Silveirinha, codinomes André, Saraiva ou Mendonça, entra correndo no banheiro das meninas, ofegante, com medo, excitado, adrenalina vazando por todos os poros, levando nas mãos as cartilhinhas do Brasilino, que estava distribuindo nas salas. Hora de aula, banheiro vazio, entocou-se no primeiro cubículo com porta, fechou-a por dentro, subiu no vaso e ficou ali acocorado, tentando coordenar a ideia.
Que diabo quer esse cidadão, careca e de cara feia que me segue desde a entrada do ginásio?
O pessoal do grêmio recomendou que entregasse o Brasilino na hora do recreio. Mas na hora do recreio está todo mundo brincando, conversando, fofocando, namorando, ninguém vai dar bola para a revolução. Esse pessoal da organização não tem muita experiência de contragolpe. Tem que usar a inteligência. Durante a aula é fácil e não atrapalha ninguém. É só chegar, discretamente, na primeira carteira da fila, sem se afastar muito da porta que aí a professora não reclama, e entregar as 12 cartilhas que dão para chegar até a carteira do fim da fila. O aluno da frente vai passando para o de trás. Se o professor reclamar vai embora, se não se importar, arrisca distribuir na fila seguinte. O importante é o aluno não abrir logo para ler, e sim guardar para ler mais tarde. O aluno da frente repete sempre a frase recomendada ao passar a cartilhinha, “ler depois” e entrega; “ler depois” e entrega; sempre o subsequente repete o procedimento até o último tê-la nas mãos. É uma técnica especial de não desagradar o professor e fazer uma distribuição segura. Depois da primeira sala já se forma uma escola de revolucionários e um bocado de gente passa a querer a cartilhinha, curiosa em ler a historinha, ver a ilustração em quadrinhos. O Brasilino faz sucesso.
E esse cara?
Desde que cheguei me segue. Parece até que veio atrás de mim. Só não contava com a minha astúcia. Aqui ele não vai entrar, não vai me bater.
O que ele quer? Qual é a dele mesmo?
André, Saraiva ou Mendonça não entendeu bem porque o pessoal do grêmio deu-lhe tanto nome, apelidado de codinome, para ele usar de acordo com a necessidade. Se alguém invocasse com André ele passaria para Saraiva. Se houvesse alguma reação de estudantes na sala de aula, Mendonça seria utilizado na escola seguinte. Era um despiste formidável, o que o deixava excitado. Tinha-se tornado um revolucionário, era homem antes de fechar os 17 anos. Era tudo novo, estava curioso e atento ao que via e ouvia, compenetrado na primeira missão contra a ditadura. Esse negócio de revolução, contrarrevolução, era mole. Podia ser que dali em diante houvesse missões mais complicadas.
Imerso em pensamentos patrióticos, orgulho da raça, orgulha da escola, orgulho da rua, orgulho das meninas quando soubessem de que se tratava de um bravo e astuto guerreiro, Silveirinha perdeu a noção do tempo equilibrado na mesma e incômoda posição de cócoras. A câimbra na perna direita, na qual apoiava mais o peso do corpo, deu o alarme no exato momento em que a voz de duas alunas quebraram o silêncio no lavatório. O susto quase o derruba de cima do vaso. Equilibrou-se com as mãos nas paredes divisórias laterais de marmorite bege, o que fez despencar o pacote de cima dos joelhos, espalhando o Brasilino no chão. Por sorte, elas tinham ido  apenas conferir os penteados e logo saíram. Aproveitou, desceu, catou cartilhinhas. Desta vez abaixou a tampa do vaso, subiu e ficou melhor acomodado, mais relaxado. Afinal seria mais dez minutos apenas, acabaria o recreio e poderia ir embora. O homem já deve ter ido embora, acabou o perigo, perigo não sei de que, mas perigo. Preparando a estratégia de retirada, depois de quase uma hora recluso, Silveirinha repara na porta do banheiro. Não é que as meninas rabiscavam a porta que nem os meninos? Ao lado de desenhos de bilolas e periquitas, separados, juntos fazendo aquilo, a bilola trespassando a periquita. Bateu outro tipo de excitação ao descobrir que havia mocinhas puras e belas tão ousadas quanto os rapazes. Além dos desenhos, frases e mais frases rabiscadas. Tudo safadeza. Uma delas dizia “neste lugar isolado, que toda vaidade se acaba, toda covarde faz força, toda valente se caga”. Gostou, pura poesia, alta sabedoria, sua primeira aula de feminismo. Espertado pela sirene chamando para a aula seguinte, saiu do esconderijo, olhou-se no espelho do lavatório orgulhoso da própria performance. Se fosse apanhado teria problemas, nem era daquela escola no centro de Aracaju. A dele ficava na Barra dos Coqueiros, do outro lado do Rio Sergipe. Era pertinho, mas só chegava lá de lancha.
O brio de Silveirinha durou até botar o pé fora do banheiro. Foi agarrado pela gola e imobilizado com uma chave de braço.
- Pensou que tinha me enganado né comunistazinho safado? Teje preso. Vou te levar pro tenente lá no 28BC. Junta todos esses documentos terroristas pra levar, é a prova. Tu pode até morrer no pau...
O que foi que eu fiz?
Silverinha interrompeu o discurso do seu algoz, um cabo da 2ª Seção da PM sergipana.
- Eu não tenho medo, essas cartilhas ilustradas são tirinhas para distrair os colegas, desconversou para ira do policial.
- Tu vais ver como é distração de comunista lá, no pau.
Comunista é uma palavra mágica para o garoto. Na sua vizinhança há um, com quem sempre conversa quando pode para beber sabedoria: maneira de se comportar em uma situação difícil, lealdade com os pais, irmãos e amigos, ser sempre justo, defender os mais fracos do ataque dos mais fortes, equilíbrio na distribuição de riquezas, justiça social... Sempre gostou da conversa e dos ensinamentos de seu Edésio, um velho mecânico, tocador de cavaquinho nas horas vagas, que agora são quase todas.
Seu Edésio vai diariamente à oficina na primeira hora do expediente. Conversa com o sobrinho Clarindo, que a dirige e na qual esbanja o talento de mecânico de carros americanos, adquirido por aprendizado com o tio, especialista no ramo. Todo dia Clarindo ouve conselhos, dicas operacionais, sugestões, opiniões do velho Edésio.
Depois do encontro, seu Edésio devolve à cabeça o que resta do velho bibico de gabardine verde oliva do tempo em que servia o Exército no Rio de Janeiro e de onde saiu acompanhando o seu tenente para unir-se à Coluna Prestes, em 1925. Lutou, venceu e perdeu inúmeras batalhas.  Pouco mais de um ano depois, na volta do Maranhão, ferido e doente “deu baixa” sob autorização e condecorações do seu comandante, agora major, e que era comunista antes mesmo de Prestes. Sairia desde que não deixasse a revolução morrer onde se fixasse. Teve a honra de escolher aonde queria parar, sem imposição do comando.
O bibico é uma relíquia. Seu Edésio, passado dos setenta, não permite que ninguém o toque. Bibico na cabeça, retomada a altivez dos tempos da coluna, só que agora em jornada mais lenta e gingada, apropriada à sua condição, passos menos largos e mais compassados, volta para casa. Empreitada na qual consumirá de quatro a cinco horas, em um percurso que cobre quase todo povoado de Barra dos Coqueiros, parando aqui e ali, na casa de pessoas amigas, quitandas, esquinas, calçadas, bancas de revistas, no campinho de bola, tudo por um dedo de prosa. Avançando nas duas da tarde,  seu Edésio, chega em casa, diz oi tudo normal? à companheira, pega a viola, atravessa a rua e vai para um dedo de pinga na birosca do compadre Policarpo.
- Diga aê compadre!
- Dia aê maior.
Policarpo que o vê chegar em casa já o espera, copo americano com um terço de cinzano e outro terço de cachaça das boas, fabricada nas barrancas do Rio São Francisco lá para os lados de Minas Gerais. Silverinha, que morava perto, assistiu a cena muitas vezes e muitas vezes foi chamado para uma prosa. O velho Edésio gosta dos jovens, acha que está prestando um serviço nessas conversas. Jamais esqueceu a recomendação do comandante, passados mais de 40 anos. Nesses momentos, Silverinha sentia-se muito honrado. Atentava ao máximo a conversa, às suas aulas de revolução, uma revolução sem revólveres nem faca, mas revolução.
- Acorda moleque, chegamos, falou ríspido no seu pé de ouvido o cabo careca. Vendado, Silverinha tinha sido jogado no piso entre os bancos de um jipe willys com a recomendação de não levantar a cabeça. Não tinha ainda noção exata do que acontecia, sabia apenas que protagonizava uma ação revolucionária. Por umas boas duas horas rodaram por ruas esburacadas nas cercanias de Aracaju e o susto inicial foi se transformando pelos solavancos em cansaço e sono. Quando entendeu que a operação despiste estava de bom calibre, o cabo careca deu o sinal para o motorista dirigir-se ao 28BC. Tirada a venda, o nosso valente revolucionário achou-se em uma sala escura, sem janelas e de porta fechada.
- A autoridade vai falar com você comunistazinho de merda, despediu-se o cabo.
Cinco anos depois, estudava jornalismo em Salvador, para onde se mudara por orientação de seu Edésio, ao sair do cárcere de 15 dias no quartel. Tinha saído herói, para desgosto da família que desesperada o procurara em vão em vão em hospitais, escolas e delegacias de polícia. Em Salvador, Silveirinha recebeu a notícia, uma intimação entregue no endereço da família,  de que fora condenado a 18 meses de prisão. Sentenciado por unanimidade no tribunal militar, em processo amplamente documentado por mais de 30 cartilhinhas do Brasilino, material subversivo considerado de alto risco à segurança nacional.
O conteúdo explosivo, exposto em tirinhas ao longo da publicação, dizia mais ou menos o seguinte: Brasilino quando acorda escova os dentes com uma escova Tek e usa pasta Kolinos, toma banho com sabonete Palmolive, usa talco Gessi, penteia o cabelo com brilhantina Glostora, faz a barba com creme da Willians,  lancha cachorro-quente com coca-cola (este último item era uma coisa séria, aliás como todas anteriores, porque o pessoal do Mec-Usaid costumava acabar assembleias estudantis secundaristas na cidade distribuindo coca-cola e cachorro-quente na porta do prédio. Quase todo mundo corria a provar da novidade, não ficava um gato pingado para continuar o debate. E a assembleia era encerrada por insuficiência de quorum).
Silveirinha compareceu ao comando da VI Região Militar, em Salvador, sem saber do que tratava a intimação recebida. Surpreso, recebeu voz de prisão, sendo encarcerado no antigo Forte de Santo de Antônio Além do Carmo.
Cinco meses depois, foi libertado para não aumentar o vexame da Justiça Militar com a repercussão do caso.


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O sorriso de Luísa
 
 
A princesinha gira
E tenta caminhar em círculos
Com a mãe ao centro segurando
Uma das mãozinhas
Do outro lado da webcan
20 mil km distante
Torço aflito para que ela pare um segundo
E me olhe no segundo seguinte
Quando isso acontece, raramente,
Fico feliz, grito do lado de cá
Chamando-a pelo nome, ou entoando
A mesma canção de ninar que cantava
Para a mãe e a madrinha dela
Ela não ouve, não para,
Tagarela, embora ainda não fale,
Conversa com todos,
Às vezes em mandarim,
Diz do seu desejo de já estar
Correndo pela casa
Usando o controle da TV
Que já aprendeu a ligar e desligar
Coisas da modernidade...
Ou então conversa com algum brinquedo
Ou morde, com os dois dentinhos inferiores
Os únicos até agora
Os cabelos longos daquela que a protege
E a orienta nos primeiros passos
Chamo novamente, não dá trela
Há coisas mais interessantes
A ver e a fazer na excitação do mundo novo
Que se apresenta e se abre aos seus olhos
Lindos, negros, grandes, brilhantes
E continuo aqui a esperar...
Um sorriso de Luísa