DE UMA ENTREVISTA JAMAIS REALIZADA

Não, não íamos à praia.
 
O poeta Drumond escreveu certa vez
que não vira o mar,
mas vira a lagoa.
Sim, vivendo em Minas
fica muito difícil ver o mar.
 
Mas felizmente havia a lagoa
e se pintava nas cores da tarde.
 
E nós, como já disse,
não íamos à praia.
E também nem ao longe víamos
o mar. No fundo Sudoeste da Bahia,
apenas a vegetação rasteira e cinzenta da caatinga
com morros azuis ao longe.
 
Também não podíamos ver o rio
porque na cidade não passava um rio.
Para ver um rio,
tínhamos que ir mais além, além.
Havia o açude, sim,
mas brincar com ele era cutucar a morte
com vara curta. De vez em quando
alguém aparecia boiando,
não propriamente no açude,
mas já nas ainda mais profundas águas
do Nunca Mais...
 
Também havia cacimbas
de águas sujas.
E lagoas, como a do poeta.
Que não eram como a do poeta,
eram pequenas, feias, tristes,
jamais conseguiriam pintá-las
as cores da tarde.
 
Pois é, também não víamos o mar
e as lagoas não compensavam.
 
Recordo-me de sentir saudade de mares e rios
(essa saudade do que não temos,
saudade grande,
só menor que a saudade do futuro),
como de florestas, montanhas, geleiras, outros planetas.
Porque, afinal, havia o cinema,
os livros de História
e a literatura, muita literatura,
na biblioteca de casa
e na pequena minha estante particular,
que a cada viagem do pais ficava mais rica.
A cada viagem porque também não tínhamos livraria,
embora chamassem de livraria a portinha
com papel pautado, lápis, caneta, caderno,
fotonovela e revista de moda.
 
(Certa vez fizeram uma rifa, que eu ganhei.
Aí fizeram uma segunda, que também ganhei.
Fiquei rico em papel pautado, lápis, caneta, caderno,
rejeitei as fotonovelas e dei as revistas de moda
a minha mãe.
Quando conto este caso as pessoas costumam dizer
que eu queimei a minha sorte,
gastei em bobagens o que me poderia vir a render
uma fortuna,
porque a sorte só se dá raramente
e a apenas alguns. Mas, enfim,
os que não foram premiados naquelas rifas,
ou seja, que não gastaram sua sorte,
também, pelo que sei,
não tiraram ainda nenhuma sorte grande,
quem não estará ela
- que foi sorte pequena, cresceu e se tornou grande -
com saudades de mim?)
 
E assim íamos levando,
com canários-da-terra, tico-ticos, sanhaços, sofrês, curiós, periquitos, papagaios, tiês-sangue, guriatãs, mexeriqueiras, urubus, urubus, urubus, bichos-de-pé, frieiras, vermes, calundus, lacraus, licuri, tamarindo, umbu, melancia, maracujá, abacaxi, jaca-de-pobre, banana, banana, banana, cavalos, jegues, bodes, cachorros e cachorros, gatos e gatos. E, além das ruas sem calçamento, muita terra para ser explorada, carros de bois cantando... À noite, o pio das corujas, o galope da mula-sem-cabeça, o uivo dos lobisomens...
 
Saudades.
 
Tínhamos saudades do belo e vasto mundo lá fora.
Mas era um belo e vasto mundo ali mesmo.
Penso que até Salomão, em toda a sua glória,
gostaria de estar ali,
como certamente gostaria muito a
Rainha de Sabá.
Eu mesmo queria estar ali
agora,
menino magro,
de orelhas de abano,
sem mar e sem lagoa,
mas com uma infância.
Aquela infância que não cabe em palavras,
a não ser as que contam histórias maravilhosas,
dessas que iluminam os corações
(como a tarde coloria a
lagoa do poeta)
e alguns dizem que não passam de invenções
de quem não tem o que fazer.