Na final do Face Awards Brasil, Nina Codorna conquista público drag; conheça

Uma das cinco finalistas do concurso Face Awards Brasil é a drag queen baiana Nina Codorna. Adepta do estilo kitsch, a drag encarnada por Marcos Borges ganhou repercussão nacional com apenas um ano e meio de vida. O concurso sediado em diversos países dará à vencedora o prêmio de R$ 20 mil e uma viagem com estadia de 14 dias para Los Angeles, nos Estados Unidos. O baiano, que admite “não ser maquiador”, já é reconhecido pela arte criada no próprio rosto. O cenário da arte drag queen tem mudado no cenário nacional. Artistas com Pabllo Vittar e Gloria Groove, por exemplo, circulam frequentemente em programas da TV, peças publicitárias e grandes casas de show, o que para Nina ajuda na “representatividade” drag. Apesar da baiana ainda “não ter muita visibilidade”, ela alcançou rapidamente espaço na mídia e ganhou fãs no público drag, o que o surpreendeu.

Como surgiu a ideia de ser drag queen? Era um desejo antigo?
A minha decisão de virar drag não foi do nada, eu comecei como uma brincadeira. Sou fã do reality show RuPaul's Drag Race, que é uma atração que humaniza a drag queen. Fiz uma festa com uns amigos que também nunca tinham se montado [se vestido como drag] e aí a gente começou como uma brincadeira mesmo, uma coisa só dentro de casa mesmo. Já conhecia alguns espaços que tinham shows de drag, mas nunca levei a sério, da forma como estou levando hoje, e foi aos poucos. Me montava e as pessoas pediam que me montasse de novo e aí foi acontecendo.

 

O trabalho com a publicidade exerceu alguma influência na decisão de ser drag queen?

A minha carreira como diretor de arte contribuiu muito para a drag queen. Porque a arte drag é uma multi arte, tem uma série de questões, eu trabalho com fotografia, com manipulação de imagem, com maquiagem, performance, teatro. É um conjunto de tipos de arte, e pra mim é uma válvula de escape do mercado publicitário, que às vezes fico dia inteiro fazendo job [trabalho] chato mesmo. Começou muito como um trabalho experimental e hoje é uma válvula de escape pra mim

Foto: Paulo Victor Nardal / Bahia Notícias


Há quanto tempo você exerce a arte?
Um ano e meio só. Gostei muito da repercussão que está acontecendo. Comecei com um equipamento de luz contínua pra fazer minhas fotos já pensando em fazer um canal no youtube e há três meses eu lancei o canal. Toda a produção é minha.

Há quanto tempo você é maquiador? A maquiagem veio junto com a drag queen?
Eu nunca tinha feito maquiagem, nem nunca tinha experimentado nada do universo feminino, dessa questão do gênero, como usar salto, batom, nada, nada, desde pequeno. Eu comecei a experimentar, fui aprendendo no youtube, autodidata. Estudei em Belas Artes, então já sabia desenho, pintura, já estava familiarizado com algumas técnicas de representação gráfica e isso ajudou muito, óbvio. Não era uma pessoa que nunca tinha feito nada, só não tinha feito a técnica da maquiagem de fato. Não sou maquiador, não faço maquiagem social, não faço maquiagem pra noiva, por exemplo, que aí engloba uma série de conceitos, teria que entender sobre pele, saber o quê que funciona, tonalidade, tipos de pele, que é um conhecimento técnico que não tenho ainda. Quero até experimentar isso um dia, mas minha maquiagem é artística mesmo. Já fiz até oficinas sobre isso, mas não são oficinas de maquiagem, são oficinas sobre o meu processo artístico, é o que funciona no meu rosto, eu sei maquiar o meu rosto. Já fiz maquiagem em outras pessoas também, mas essa experimentação e investigação minha é do meu rosto.

Você trabalha como drag queen? Já ganha dinheiro com isso? Como é o cenário da arte drag em Salvador?
Sim. A arte drag na verdade é uma arte marginalizada, é uma arte do induto LGBT, que é marginalizado. Ela é pouco valorizada, tá tendo um “boom” aí drag, nos últimos 2, 3 anos. Está vindo uma geração nova, eu sou dessa geração, tem várias drags novas em Salvador que estão reciclando e trazendo coisas novas. [O conhecimento das pessoas sobre o universo] É muito também pelo advento da internet. Desde os anos 90 veio Priscila e o RuPaul’s ajudou muito a popularizar, principalmente com os jovens. Os cachês aqui são baixos, tem boate aqui que tem o apreço de chamar atrações que vem de fora, de São Paulo e outros estados. O fato do RuPaul’s ser muito popularizado, muitos fãs são fãs do programa, das celebridades do programa, o público que gosta de drag valoriza pouco a arte drag nacional. Isso acontece também muito nos EUA, as drag locais tem rixa com as participantes do RuPaul’s, a galera só vai pra show da RuPaul’s. Aqui [em Salvador] não tem tantas drag do RuPaul’s que vem, só veio a Latrice Royale uma vez. Mas em são Paulo, por exemplo, tem muitas drags que vão pra lá, que viajam, e elas lotam as boates sempre. E as drag locais não lotam, então tem essa relação aí. É difícil financeiramente, já fiz trabalhos, já fiz eventos, já fiz performances em festas, já entrei numa oficina de teatro pra ajudar a desenvolver minha drag também - e foi ótima, uma terapia. Já fiz um musical, [cantar] não é meu forte, mas eu canto. Fiz duas peças de teatro já e foi uma experiência maravilhosa. Porque a drag pode estar em todos os lugares, em uma multiarte, mas ainda assim acredito que a cena poderia ser mais desenvolvida.

Pabllo Vittar é um exemplo de artista drag de sucesso. Você acredita que a repercussão positiva de cantoras como ela ajudam no cenário drag?
O “Amor e Sexo” é um programa maravilhoso, ele esclarece, ajuda muito. A Pabllo está estouradíssima, fico muito feliz porque ela representa muito bem a arte, apesar de minha drag ter uma linha diferente da dela. A Gloria Groove também, gosto até mais dela, ela tá aí também caminhando, não tanto quanto a Pabllo, mas tá aí. Estou gostando muito dessa representatividade drag, acho muito importe. A nível de esclarecimento principalmente na TV aberta, pra muitas pessoas que não sabem o que é a diferença de drag, trans, que não sabem o conceito, o “Amor e Sexo” apesar de ser um programa curto já é uma quebra [de preconceitos] muito importante. Também tem uma questão do público LGBT, do próprio preconceito no meio. Então, por exemplo, aqui em Salvador você vê boates que tem uma aceitação de diversidade, e uma frequentação de transexuais, travestis, drag queens, principalmente na noite do centro. Mas, em boates no rio vermelho você vê menos, é público mais “seleto”, e também tem muito preconceito e resistência. Hoje em dia você já vê festa em todos os lugares com drags, então já é um avanço. O publico que antigamente tinha mais preconceito agora já está mais aberto, justamente por essa representatividade na mídia.

Qual a origem do seu nome artístico?
Quando comecei [na arte drag] soube de uma brincadeira que você escolhe o nome do seu primeiro animal de estimação e da rua que você nasceu. Sou daqui [de Salvador], a rua que eu morava lá no Imbuí era rua das codornas, e minha cadelinha de estimação foi Nina. Eu achei engraçado o nome, primeiro que é codorna, nome diferente, geralmente as drags tem nomes com duas letras, y, w, nomes difíceis, sh, em inglês, e é difícil. Então tem essa assimilação fácil, e codorna é uma coisa que é muita específica, só se usa em alguns contextos. O nome é meio dualista, ao mesmo tempo que Nina é nome de diva, codorna é uma ave barata vendida em boteco, eu gosto dessa brincadeira. Quando eu comecei não me levava a sério, não achava que deveria estar sempre impecável, não me levava a sério artisticamente e sempre experimento coisas novas, sem medo de errar, ou ter uma zona de conforto.

Como surgiu a ideia de se inscrever no concurso?
Não imaginava essa repercussão toda, já conhecia o concurso de outros países. É um formato que já conhecia, e falava que se tivesse um no Brasil iria participar. Achava que tinha tudo a ver comigo, maquiagem artística, e gosto muito, como sou um artista visual. Assim que eu soube [do concurso], resolvi me inscrever. Aproveitei que eu estava montando um canal, já tinha um equipamento de luz, tinha feito alguns tutoriais, e o formato pra mim foi perfeito, caiu como uma luva. Mas não esperava essa repercussão porque no início o concurso tinha muitas pessoas com influência muito grande de seguidores, e eu sabia que era uma votação popular, e que seria muito difícil.

O número de seguidores influencia em concursos que exigem votação popular?
Atrapalha. Se a pessoa fosse famosa por ser um bom maquiador artístico atrapalharia mais ainda, mas tem essa questão também, de quando a pessoa é um influenciador digital. A Lorelay Fox entrou no concurso, ela não conseguiu enviar o vídeo a tempo, pra sorte da galera que entrou na maquiagem artística, porque se não ela iria pra final. E ela não tem um trabalho de maquiagem artística, ela não é conhecida por isso, ela ia usar a influência dela para ser votada. A Lorelay Fox é maravilhosa, mas ela não é uma drag conhecida pelas maquiagens artísticas, apesar de que no vídeo que ela fez [de maquiagem artística] ela arrasou também. A final é um júri fechado. Do top 30 ao top 5 foi voto popular.


 

Já se enxerga vencedor do concurso?
Fiquei bastante surpreso, não tinha certeza, resolvi fazer a campanha porque pensei assim: “Se eu não fizer não vou passar”. Fiz por desencarno de consciência, resolvi mandar para os canais que conhecia de mídia, os grupos de drag. Porque tem o fato de até o top 15 eu ser o único baiano e a única drag na competição, então todas as pessoas que eu conhecia do público drag me abraçaram. Existiam outras drags na competição, rolava essa rixa assim, competitividade de outras drags que tem mais visibilidade do que eu também. Quando foram limando a galera elas [outras competidoras drags] foram nessa leva. Estou no Top 5, ainda não recebi o resultado, que cada etapa é um desafio, o primeiro foi “sereismo”, o segundo “perdidos no espaço”, a final vai ter outro tema, que ainda não sei. Agora que eu estou na final vou investir, vou me jogar aí, fazer a melhor maquiagem que eu já fiz na vida, superar todas que eu já fiz. Vai ser difícil mas espero conseguir, estou confiante agora.

O concurso te trouxe visibilidade?
Trouxe sim. Não tenho tanta visibilidade assim porque eu tenho um ano e meio, relativamente novo nessa arte, e muitas pessoas principalmente que não são do público drag, porque o público drag já me conhecia, por causa das redes sociais, e já fui em outros estados como drag. Não sou uma drag famosíssima no Brasil, mas no âmbito drag as pessoas me conhecem. [Através do concurso] Eu conheci pessoas da maquiagem artística, que é completamente diferente do público drag, e eu gostei muito, aí eu tive experiência com maquiadores profissionais. A gente entrou no grupo do Whatsapp do top 30, e aí a gente trocava várias referências, a galera não teve competitividade nenhuma, concurso maravilhoso, todo mundo super gente boa, se ajudando. Até porque a arte drag é marginalizada e a maquiagem artística não tem tanta visibilidade aqui no Brasil, mas o nível tá muito bom.

Explique um pouco sobre o estilo kitsch
Tenho vários estilos dentro da maquiagem, um deles é um kitsch, que na verdade é um estilo de artes visuais, é nada mais nada menos que brega. É um estilo brega, que não é cafona nem exagerado, mas é um estilo que são usadas cores hiper saturadas, elementos de uma figura e exagera, de uma forma bem exacerbada, e o kitsch é isso, se não me engano é um termo alemão. Elementos que não combinam são misturados para criar uma nova estética. Uma das representantes kitsch mais famosas que exploram isso [no Brasil] é a Gabi Amarantos, tem uns clipes dela bem bregas, e o estilo dela é brega. Visualmente a estética kitsch é a Gabi Amarantos e eu gosto muito disso, mas me inspiro em outro estilos também.