Sertanília lança álbum intitulado 'Gratia' em homenagem às mulheres

O grupo baiano Sertanília lança o seu segundo disco, intitulado Gratia, em Salvador neste sábado (8), no Largo Tereza Batista. O álbum que é composto por 14 faixas, sendo 9 autorais, contou com o apoio do Natura Musical, com apoio do Governo do Estado da Bahia, através do FazCultura. Em conversa com o Bahia Notícias, a vocalista Aiace e o produtor musical e músico Anderson Cunha contaram um pouco sobre a concepção do projeto. Pautado na tradição da folia de reis do Alto Sertão, o disco traz as mulheres como mote central em uma cultura tradicionalmente masculina. "O disco fala muito do nascimento da música do Sertanília. O laboratório da gente é justamente esse encontro da música que veio com os colonizadores, com os espanhóis e com os portugueses, o encontro dele com o negro, o cativo, com os quilombos e os índios. E da mistura nasce o homem do sertão, do sertão dessa Bahia que a gente pesquisa".
O que o público pode esperar de novo em comparação ao primeiro álbum?
Aiace: O disco vem um pouco diferente do primeiro, acho que ele vem muito mais forte. A gente traz algumas referências que para a gente também são muito fortes. Trazemos a mulher como um dos motes centrais, em homenagem ao nosso disco também.  Temos como participação a Guadi Galego, que é uma cantora espanhola, a Renata Rosa que é paulista, mas que pesquisa muito a cultura do sertão de Pernambuco e os próprios reis. E também trazemos no disco “Vinhetas”, mantendo o que a gente fez no primeiro disco, mas dessa vez trazendo reis liderados por mulheres.
 
As mulheres são as grandes homenageadas nessa produção. Quais os critérios de escolha para as participações?
A: O disco faz um apanhado do que a gente estuda nesse alto sertão. O que nós observamos é que dentro dessa cultura dos reis, há uma forte influência da música galega. Então, nós aproveitamos um gancho de quando nos fomos para o “WOMEX” em 2014, em Santiago de Compostela, e fizemos o contato com a Guadi Galego. Ela que é agora ex-vocalista de uma banda lá, a “Berrogüetto”, tem o trabalho solo também. Guadi vem com essa música galega unindo a tradição galega que também está presente nessa música do nosso sertão, com o que nós fazemos, com a música africana, um pouco da música indígena e a música portuguesa, todas presentes no Sertão. E os reis é uma tradição portuguesa, a escolha da Guadi veio muito por isso.
 
A escolha da Guadi Galego, que é espanhola, é uma tentativa de conquistar novos públicos? Talvez um público europeu?
Anderson Cunha: Não pensamos nisso não. Porque o disco fala muito do nascimento da música do Sertanília. O laboratório da gente é justamente esse encontro da música que veio com os colonizadores, com os espanhóis e com os portugueses, o encontro dele com o negro, o cativo, com os quilombos e os índios. E da mistura nasce o homem do sertão, do sertão dessa Bahia que a gente pesquisa, então a Guadi vem representando esse europeu, esse bandeirante que veio desbravando e chegou a esse lugar tão distante do litoral. A gente escolheu a mulher pra contar a história desse encontro, as duas reiseiras vão de encontro a essa tradição bem masculina, e ao mesmo tempo são mulheres negras e extremamente fortes, daí a escolha delas. E a outra convidada é a Renata Rosa que é uma cantora brasileira. A princípio não tem um apelo mercadológico, já viajamos umas 6 vezes para a Europa. Não passa por aí a escolha da Guadi.
 
Apesar das participações serem todas de fora, vocês escolheram três cidades baianas para o lançamento do álbum. Qual a relação do grupo com esses municípios e o porquê dessas escolhas?
A: São cidades que tem um mercado alternativo e a gente circula no mercado alternativo. Não temos grandes oportunidades nos meios de comunicação de massa. É difícil, né?! Então, Feira [de Santana] tem um circuito alternativo já consolidado com coletivos e tudo, [Vitória da] Conquista também. Nós já tocamos no Alto Sertão, onde a gente pesquisa, mas levar o espetáculo pra lá é caro, então dentro do projeto, do orçamento do projeto que a gente tem junto à Natura, nós não tivemos condições de estender a turnê. Aí sim foi uma questão mais mercadológica, porque a gente tem facilidades por conta do coletivo e do circuito alternativo.
 
Qual a importância do apoio da Natura para a produção do álbum? Como vocês avaliam a oportunidade dos artistas usufruírem da lei de incentivo?
A: Como a gente circula nesse mercado alternativo sem a lei de incentivo, sem o aporte financeiro, não dá para circular e produzir com a mesma qualidade. O primeiro disco foi da “Conexão Vivo”, que acho que não existe mais. A gente pode fazer um produto mais elaborado, com livreto, com encarte, gravado e produção, podemos fazer as gravações em Pernambuco, gravamos a percussão lá, a gente só pode fazer isso graças à lei de incentivo. Nesse disco atual a gente gravou também no Rio de Janeiro, a Renata Rosa gravou em Paris, a gente pode dessa vez mixar o disco em São Paulo, e masterizar o disco nos Estados Unidos. Tudo isso custa muita grana e para o artista alternativo sem uma força, sem a lei de incentivo, fica tudo muito difícil.
 
Vocês devem ter acompanhado os escândalos em torno da Lei Rouanet. O que vocês acham de grandes artista utilizarem esse recurso?
A: Acho que o nome já diz “lei de incentivo”. Você não pode se acomodar e ficar dependente dessa lei, ela é pra dar um pontapé inicial pra você mostrar seu trabalho e partir dali o interessante é que você comece a se virar com suas próprias pernas. Que você comece a se autoproduzir e fique independente de qualquer outra coisa. Pra nós, a lei de incentivo serve pra a gente poder mostrar nosso trabalho. Não faz muito sentido um artista que já tem visibilidade, que tem uma carreira consolidada, já tem um patrimônio cultural, de discos, de shows, de carreira, é meio estranho. Eles têm mais acesso aos grandes meios de comunicação, é a deturpação do que é base do projeto né, porque eu acho que ninguém tem que ser dependente de lei de incentivo.
 
Das 14 faixas do álbum, 9 são autorais. Como acontece o processo de composição do grupo? De forma coletiva, individual? Vocês já guardavam alguma canção na gaveta que integrou esse disco?
AC: O processo é muito natural, eu começo a compor, a maioria das músicas parte de mim. Eu levo as músicas [para o interior], a gente desenvolve no estúdio, cada um vai dando opinião e vamos fazendo. A parte da composição da elaboração gira em torno de mim.
 
O que o público pode esperar do espetáculo que será apresentado neste sábado? Quais são as suas expectativas? Como vocês montaram o repertório?
O repertório mescla muitas coisas do primeiro disco com as do segundo, porque a galera pede muito as canções do primeiro. Teremos a participação da Renata Rosa, esse será o único show que ela vai participar. As expectativas são grandes porque tocar em casa é sempre muito diferente, tem sempre um gostinho especial, e tem tempo que a gente não faz show aqui em Salvador, então para a gente vai ser muito importante. Estamos finalizando esse ciclo de três shows, aqui em casa. O show também está concorrendo ao prêmio Caymmi de música. A partir daqui vamos divulgar, temos muito trabalho pra divulgar ele ainda, e vamos vender os CDs também no show a preços promocionais.