'Não consigo me ver menor que Chico Buarque', diz cantor pernambucano China

Ex-Sheik Tosado, vocalista do Del Rey (homenagem a Roberto e Erasmo Carlos em conjunto com o Mombojó), o pernambucano China se apresenta pela primeira vez em Salvador neste sábado (11). No show que fará no Solar Boa Vista, dentro do Festival Zona Mundi  que terá participações de Karina Buhr (PE), Anelis Assumpção (SP), O Terno (SP) e Felipe Cordeiro (PA), além de atrações locais , o cantor pretende apresentar ao público soteropolitano algumas músicas do seu novo disco, ainda em fase de produção e que deverá ser lançado em abril. "Cara, se eu pudesse eu tocava três dias seguidos [risos], mas eu vou fazer um apanhado de todos os meus discos", contou ao Bahia Notícias. Aos 30 e poucos anos, China tem uma longa carreira na música. Em 2003, se lançou em carreira solo, que culminaria com o lançamento do álbum "Um só" (2004) e "Simulacro" (2007). Radicado em São Paulo, o músico foi VJ da MTV, onde comandou o "Na Brasa", programa que lançou muitos artistas independentes. Atualmente, participa do programa “A Liga” (Band) e tem um programa semanal na rádio OI FM. China refuta o rótulo de "artista independente". "Artista é artista, cara. Eu não consigo me ver, sem modéstia nenhuma, menor que Chico Buarque. Às vezes, em algum momento da carreira de Chico Buarque ele estava exatamente do meu tamanho", avaliou.
 

 
Bahia Notícias – Como é se apresentar em Salvador pela primeira vez em tantos anos de carreira?
China – 
É a primeira vez que eu vou tocar em Salvador, por incrível que pareça. Eu tenho quase 15 anos de carreira e essa é a primeira vez que eu consigo chegar aí. E ainda sendo convidado do Zona Mundi, um projeto super bacana. Eu estou super animado com esse show, muito mesmo. 
 
BN – Você já apresenta o seu terceiro disco solo?
C – Vou apresentar as canções do meu segundo disco solo. O terceiro eu estou terminando de gravar e lanço em março ou abril, mas eu já vou mostrar para o públcio daí uma ou duas novas. 

BN – Já que você nunca tocou aqui, como será o seu show?
C – 
Cara, se eu pudesse eu tocava três dias seguidos [risos], mas eu vou fazer um apanhado de todos os meus discos. Para mim, vai ser um show bem especial, por estar pela primeira vez na Bahia e poder mostrar o meu trabalho. A música independente é tão difícil. Você vê, Pernambuco e Bahia são lugares tão próximos, mas é tão difícil você conseguir circular pelo Nordeste. Os músicos independentes acabam tendo de vir para São Paulo ou para o Rio de Janeiro, lugares que são mais fáceis de chegar do que rodar dentro de sua própria região. 

Foto: Kelly Fuzaro/MTV
 
BN – Basta ver o preço das passagens aéreas de Salvador para Recife...
C – Pois é, é uma loucura isso! E isso me entristece muito, porque seria muito legal você ter um circuito nordestino da música independente mais fortalecido. Chega a ser engraçado. Eu nunca vi um show de uma banda de Salvador em Recife. Vejo em São Paulo, no Rio...
 
BN – Neste final de semana estarão em Salvador, dentro do Zona Mundi, Anelis Assumpção (SP), Felipe Cordeiro (PA) e Karina Buhr (PE), além de muitos outros. Você aposta em festivais desse tipo para integrar a música brsileira?
C – Acho que esses encontros refletem o momento que a música brasileira tem vivido. A música brasileira está muito nessa desse tipo de encontro. É um artista gravando o disco do outro, tocando com o outro, a gente está sempre se encontrando em backstage, conversando sobre novas ideias, novas parcerias. Acho que a galera que organiza esses festivais pegaram essa sacada. "Pô, velho, vamos pegar o que já acontece na música e levar para o palco". E isso é lindo. Salvador também está dentro da cultura. Eu acho bacana que na chamada terra do axé,a cena independente esteja tão bem. Tem o BaianaSystem, o Vivendo do Ócio, a Suinga, que é uma banda que eu conheci por acaso e pirei também. 
 
BN – E como você conheceu a Suinga?
C – 
Eu conheci pela internet. Eu estava procurando um clipe do Mombojó, que tem uma música chamada Suinga. E aí apareceram os caras da banda daí da Bahia. Quando eu ouvi, puta que pariu, achei animal, velho. Eu tenho um programa na Radio Oi aí eu comecei a tocar muito os caras. Não conhecia, ainda não conheço, inclusive [risos], mas um dia um dos caras me escreveu se apresentando como integrante do Suinga, me mandou o disco. É uma banda que eu acho muito bacana, eles resgatam a coisa do trio elétrico lá do começo, de Dodô e Osmar, as letras são super engraçadas.

BN –  Você tem um repetório musical enorme. Com certeza, muitas das coisas que você mostra em seus programas musicais (seja na rádio, seja na TV) não são do seu gosto pessoal. Qual critério você segue para selecionar uma banda que deve ser conhecida?
C – Cara, meu gosto pessoal é muito amplo. A gente do Nordeste tem muito isso. Toca de tudo e a gente ouve de forró, a pagode, a axé, a rock. É uma coisa muito característica do Nordeste, outras regiões do país não têm isso. A gente sempre foi acostumado a ouvir de tudo e a conviver com vários tipos de música. Obviamente, não dá para tocar tudo que eu recebo, muito mais pela qualidade do material, que por um gosto pessoal. Tanto quando eu estava na MTV quanto agora na rádio, eu tento mostrar a música brasileira como um todo. Eu preciso passar por várias regiões, mostrar o que está acontecendo na Bahia, o que está acontecendo no Pará, em Cuiabá. Quanto mais você abre, mais retorno você tem. E para mim é muito interessante o cara do Amapá me escrever dizendo que conheceu Vivendo do Ócio porque eu toquei na rádio, entendeu?  E Vivendo do Ócio é uma banda que obrigatoriamente eu tenho que mostrar, a BaianaSystem a mesma coisa. Então, eu fico feito louco procurando o que tem de novo mesmo. Virou uma fixação minha ficar procurando som brasileiro novo. A música brasileira é muito rica e o público não conhece 2%, não por culpa dele, mas porque não tem espaço.
 

Foto: Vitor Salerno/ Divulgação

 
BN – As rádios estão mesmo presas ao "só toca quem paga"?
C – É engraçado como as rádios continuam reféns do jabá. Eu escuto direto esse papo de que nego pediu uma grana para tocar tal som lá. Eu sou super contra. Eu nunca dei um centavo e nunca recebi também, porque acho que a função da rádio é informar e tocar. Infelizmente não é assim, mas tem o outro lado que é sensacional: a gente tem a internet, que é democrática, livre. E a música independente brasileira está se fazendo pela internet. É massa você ver um Criolo, um Emicida – que são caras que eu tenho certeza absoluta que nunca pagariam um jabá para tocar – nas rádios, que são praticamente obrigadas a tocar, porque os caras estão estourados. É massa ver Tulipa Ruiz tocando direto na rádio e saber que Tulipa Ruiz bancou o primeiro disco dela do bolso. Isso é massa! Aí você vê que é possível ter espaço pra todo mundo. A própria Karina Buhr, tudo que ela conquistou é muito na raça, é um exemplo para todos os artistas independentes.
 
BN – Inclusive, ela nem gosta desse rótulo de artista independente. A gente entrevistou Karina Buhr aqui há um tempo e ela disse que é artista como todos os outros. 
– Sim, eu também detesto esse rótulo. Até porque a gente depende de gente para caralho, a gente depende do amigo que vai gravar para você alguma coisa, que vai pesquisar, que vai dar um pitaco, a gente está sempre dependendo de alguém. Eu concordo com a afirmação de Karina. Artista é artista, cara. Eu não consigo me ver, sem modéstia nenhuma, menor que Chico Buarque. Às vezes, em algum momento da carreira de Chico Buarque ele estava exatamente do meu tamanho. E se a gente não pensar assim, fudeu, a gente não sai do lugar. A gente tem sempre de pensar para frente, maior e fazer com que nosso som circule.  
 
BN  Eu vi uma entrevista sua na qual você dizia que sempre teve certeza do que queria fazer com a sua carreira. Que certeza era essa?
– Então, eu lancei meu selo, o Jóinha Records. A gente lançou alguns artistas, acho que o mais recente é o recifense Tibério Azul. O cara foi pro Som Brasil da Globo, conseguiu circular o Brasil inteiro e é um dos destaques dessa nova geração do Recife. O selo eu consegui. Outra certeza minha era a de viver com a minha música, o que hoje em dia eu consigo. Eu tenho dois filhos, os dois moram comigo  e eu consigo manter os dois e a mim. Ninguém é rico, mas também não precisa ser, pagando as contas está massa. 
 

Foto: Band/ Divulgação
 
BN – Queria que você me contasse um pouco sobre a sua participação no  A Liga, como surgiu o convite...
– Eu pedi para sair da MTV para poder gravar meu disco novo, porque eu não estava conseguindo ter espaço, nem tempo. Daí, estava aqui em casa de bobeira, o telefone tocou, era o pessoal da Liga me chamando para fazer o teste. Quando acabou o teste, os caras disseram que estavam a fim de que eu fizesse parte do programa. Para mim foi sensacional. Como ser humano, você conhece realidades completamente diferentes das suas e que ao mesmo tempo passam muito perto de você. Como músico, acrescentou muito também, no sentido de você enxergar beleza onde nunca vê ou uma tristeza onde você só vê beleza. Fora isso, conhecer a rapaziada toda. Eu adoro Rita, pense em uma nega que eu gosto! E é isso, não é o quanto você está ganhando em cada coisa que você faz, seja na música, na TV, é o quanto de relação você leva disso. Essa é a melhor coisa, que é a lógica do músico mesmo. Dinheiro de verdade a gente nunca ganha, mas, em compensação, no dia em que eu precisar ir para a Bahia, tem umas oito casas me esperando.   
 
BN – Falando nisso, você saiu do Recife cedo, com 17 anos, foi para o Rio de Janeiro, agora está em São Paulo. Migrar é uma coisa fácil de você encarar?
– Nunca é fácil, porque você tem de deixar os amigos de lado,  as coisas que você conquistou, mas faz parte do meu trabalho, não tem jeito. Infelizmente, a gente ainda não consegue ter, não só no Recife, mas no Nordeste, uma estrutura que mantenha os artistas lá. Em algum momento você terá feito tudo que tinha a ser feito ali e você terá que ir embora. Isso, na boa, é o que mais me machuca. Se eu pudesse, garanto a você, que eu ficaria no Recife direto. 
 
BN – Voltaria para lá hoje, caso houvesse essa estrutura?
C – Se houvesse essa estrutura, com certeza, eu voltaria. Mas eu sei que ao mesmo tempo é importante eu estar aqui para conseguir batalhar por essa estrutura para quem ainda está lá, sabe? Eu estar aqui, a Noção Zumbi em São Paulo, o Vivendo do Ócio e a Pitty também em São Paulo, é importante. Claro que a gente está batalhando pelo nosso, mas a gente está conseguindo levar o nome do estado da gente, o que não aconteceria antes caso a gente não estivesse aqui. O Felipe Cordeiro, do Pará, veio morar em São Paulo também. São trajetórias muito parecidas. Uma hora você tem que voar, não tem jeito!